Viagens #31: aqui ao lado


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Tenho de ir apanhar o comboio para Casablanca e estou atrasada. Vou no autocarro com pessoas da minha família. Saio a correr e, para dificultar ainda mais as coisas, há obras na rua e tenho de fazer um desvio e atravessar alguns montes de terra solta. Quando chego ao passeio, reparo que me esqueci da mala do outro lado da rua, e volto atrás. Já só faltam alguns minutos para o comboio.

Pego na mala, mas quando começo a andar apercebo-me de que tinha tirado os sapatos para não os encher de terra, e ainda tenho de voltar a calçar-me antes de continuar. Ainda por cima, não tinha desapertado os cordões, e no meio da confusão os sapatos encheram-se de terra e os cordões estão embaraçados. Faltam poucos minutos para o comboio. Por este andar, vou perder o avião de regresso a casa.

Este foi o meu mais recente sonho com Marrocos - já após o regresso. Quase todos os dias, há qualquer coisa de Marrocos que se esgueira para os meus sonhos. E não são eróticos; creio que ainda não consegui ter sonhos eróticos com bigodes (estou certa de que esta é uma frase que os meus amigos vão gostar de citar; dedico-a a eles).

Regressar é estranho. Começa com o cheiro a desinfectante no aeroporto; com mulheres muito arranjadas carregadas de perfume e compras duty free, e os maridos com um embrulho debaixo do braço que provavelmente contém um candeeiro de pele pintada, prova irrefutável de que estiveram em Marrocos; com o sobressalto de ouvir a minha língua, com o sobressalto da pressão da água nas torneiras; com pequenos-almoços que não têm pão molhado em azeite; com promessas omnipresentes de felicidade em cartazes publicitários; com carreirinhas de homens de fato cinzento a sair de escritórios; com reclamações sobre a vida difícil vindas de pessoas que enchem a mala do carro com sacos de presentes de Natal. Um dia, dou por mim a comer pedaços de morcela com as mãos, apanhando-os com pão, e páro e percebo que às vezes ainda estou lá. Apesar da alegria do reencontro com os dióspiros, o requeijão de Seia e os pastéis de nata, do conforto da água canalizada e - tanto - da família. É um pouco como ouvir vozes - e as vozes só falam comigo, vivem num quintal das traseiras onde só eu posso entrar.

Não gosto de balanços (excepto o dos atletas no momento do lançamento do peso ou do dardo), mas quero pelo menos dizer que volto com a certeza da ignorância avassaladora que temos uns dos outros - que não se resolve com ideias genéricas, mesmo se verdadeiras, sobre o que os outros são, porque nessa generalidade exótica perde-se a diversidade, exuberante ou subtil, das pessoas e dos lugares; perde-se a realidade. Aquilo que vemos e ouvimos ao longe (mesmo se estivermos no local) sobre essa entidade plural que são os outros está tão longe da realidade como os beijos de amor que vemos no cinema estão longe da experiência pessoal de um beijo.

Há muita coisa que não percebemos, sobretudo se vamos apenas alguns dias, como turistas. E é bom sentir que começámos a perceber uma ínfima parte disso. Coisas que nos pareceram absurdas (e eu ri-me de algumas delas, e escrevi sobre elas), mas cujo sentido ou causas percebemos um dia, por acaso, porque alguém nos mostra ou explica, porque damos por nós a fazê-las e o gesto sai naturalmente. Hipóteses que não nos passaram pela cabeça, explicações, ideias brilhantes ou nem por isso para fazer aquilo que é comum a todos: viver todos os dias.

Inúmeros preconceitos, opiniões e -ismos foram deitados por terra - e que úteis eram alguns deles.

Uma vez ouvi o escritor Mário de Carvalho falar sobre as dificuldades de escrever sobre pessoas que não vivem no nosso meio. Dizia ele que para falar, por exemplo, de um mineiro português dos anos 40, não basta saber a história de Portugal nos anos 40, a importância da indústria mineira nessa altura, nem visitar a paisagem da região de que falamos. É preciso saber tudo - o que come esse homem, o que veste, de que fala ele - e até a forma como corta o pão. Creio que é partilhando gestos como este de cortar o pão, ao mesmo tempo tão íntimos e tão culturais, que podemos conhecer os outros.

Tinha pensado escrever mais um post, sobre as mulheres, mas agora não me apetece. Marrocos fica mesmo aqui ao lado. Vão lá ver. E aproveitem para beber um sumo de abacate com amêndoa.


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