Cada pessoa é uma marca?


 Jovens Democracia Web 2.0 Liberdade Marcas Foto: Pierre Tourigny

Um dos objectivos de alguns dos temas que tenho lançado neste blog é proporcionar algum debate sobre o papel da tecnologia na nossa sociedade, em particular aquilo que se convencionou chamar a Web 2.0. Por motivos profissionais, tenho passado algum tempo a vasculhar redes sociais na Internet e algumas coisas começam a tornar-se evidentes.

É um equívoco assumir que as redes sociais, Facebooks, Orkuts, Hi5s, MySpaces, assim como sites de vídeo do tipo YouTube ou Sapo Vídeos ou mesmo as plataformas de blogs tornam de forma universal e democrática cada indivíduo num autor, instantaneamente criativo e original. Mesmo para a falta de originalidade normal nestas coisas da democracia, inventou-se um chapéu, o da cultura "remix". A originalidade estaria na remistura do já criado e não na criação do novo.

É igualmente um equívoco assumir que a democracia e a liberdade de expressão têm uma correlação directa e inquebrável com o liberalismo económico e as forças de mercado. Basta pensarmos no caso da China, onde a liberdade de expressão continua a ser o parente pobre e escondido de uma economia em explosão de liberalismo descontrolado. Não é preciso poder dizer o que se pensa para se poder comprar o que se quer.

Olhando estes dois equívocos, começo a chegar à conclusão que a Web 2.0 não é sobretudo uma rede de auto-expressão e auto-criação mas sim uma rede de auto-apresentação e comunicação. Há uma diferença.

Quem se quer exprimir e criar é porque tem alguma coisa para dizer, alguma coisa para trazer do íntimo ao mundo. Pode não ser particularmente original ou inventivo, pode mesmo ser só (re)criação, mas vem de uma necessidade de se expressar, de criar, de transformar o "eu" numa obra que dele se distingue enquanto objecto de criação.

Na Web 2.0, contudo, de um modo geral, ninguém tem grande coisa para dizer, mas muito para mostrar: fotos, pensamentos, frases, vídeos, músicas (de outros), templates (industrializadas em novos modelos de negócio). Pedem desesperadamente "comentem a minha foto", agradecem a desconhecidos que os adicionaram a listas de amigos, comentam outros desconhecidos ainda. Isto não é criação, muito menos democracia, é... construção de marca.

A tal Geração Y anseia à celebridade, seja a televisiva e planetária, seja a microcelebridade de muitos bloguistas, mais ou menos a mesma de que gozavam os "famosos" no pátio da escola há anos atrás. E na Internet podemos, cada um, construirmo-nos como marca e ansiar ao sucesso.


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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