Calle 13 y el tango del pecado

Os meio-irmãos porto-riquenhos René Perez e Eduardo Martinez são mais conhecidos como a dupla Residente e Visitante, ou ainda, como el Calle 13. Entre as tentações da carne e o sagrado, a intencionalidade é perceptível na saborosamente herege canção "Tango del Pecado", entre outras sutilezas que vamos aqui conhecer.


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Não só de pão vive o homem e nem só de erudição vivem os olhares. Nem as audições mais demoradas... Ao lembrar que não somos feitos de ferro, nada melhor que atirar-se. Ritmo de marcações facilmente dançáveis, definido na linha dos hibridismos musicas, o reggeaton é desses estilos onde a reflexão e as grandes emoções podem ser ignoradas para que se goze mesmo dos instintos mais terráqueos. Essa ao menos parece ser a intenção principal dos meio-irmãos porto-riquenhos René Perez e Eduardo Martinez, mais conhecidos como a dupla Residente e Visitante, ou ainda, como el Calle 13. Entre as tentações da carne e o sagrado, a intencionalidade é perceptível na saborosamente herege canção "Tango del Pecado", entre outras sutilezas que vamos aqui conhecer.

Surgido no início dos anos 90 no Panamá, conta-se, numa relação entre os locais e os jamaicanos que construíam o Canal, o reggaeton é dono de uma personalidade urbana que mescla o reggae, a bomba, o merengue, entre outros ritmos caribenhos mas que hoje deve à incorporação do rap e do hip-hop a ascensão mundial, já bem fora de seu caráter underground, tendo em Daddy Yankee (aquele da pegajosa canção "Gasolina" e aquele do exótico featuring em Hips don’t lie para a rebolativa Shakira). Não é surpresa dizer que a crítica ferrenha defensora da boa música execra tudo: uma música repetitiva, pegajosa, sexista, violenta contra as pessoas, contra a gramática e despudorada; também pudera: o é de fato tudo isso em sua maioria (e aqui ignoramos que o reggaeton iniciou sua existência como música de crítica social).

Talvez esteja aí nesses estereótipos o destaque do Calle 13 e seu Tango del Pecado. A dupla encontra a perfeita dosagem da melodia fácil sem ser estúpida, sacana sem ser escandalosa, sensual, irreverente e despretensiosa. A coisa toda já começa na adição de um novo elemento rítmico que é o tango, um tango pairado, lembrado apenas, mas presente e cumprindo seu papel; depois há a história. Pode-se ficar indiferente mas, Tango del Pecado versa sobre tradições típicas e sobreviventes da latino-américa católica: um rapaz de poucas posses, ou melhor, um tipo bandoleiro, apaixona-se por uma moça de moldes “toda donzela tem o pai que é uma fera ”. Como o estrago do amor já está feito, basta o carnal mas como concretizar o paleolítico contemporâneo com a tal família conservadora nos ombros como um papagaio? Só casando.

Se acham a questão pouco provável para tempos tão libertários, acreditem, Sex&the City não é uma realidade para a maciça parte dos mortais. Mas o que torna essa trama (elementar e tola como tudo o que nos é íntimo) interessantíssima e cômica é o seu argumento: o casamento como a bênção para o pecado, um salvo conduto sagrado para o inferno. Genial.

O Diabo é o elemento permissivo, hostess de um mundo ideal onde o que era errado é agora certo e o amor é permeado pelas quenturas desenfreadas e passionais; a personificação dos desejos vividos sem culpa e o inferno o lugar ideal para exercê-los. E isso tudo não só para os recém-casados, no vídeo do Calle 13 é vibrante como se sustenta que todo o ritual do matrimônio nada mais seria que a exaltação do pecado. (Quase começo a lamentar que esse aspecto já não faça mais tanto sentido, a ansiedade dos nubentes em consumar as bênçãos divinas...). Por fim, antes que eu me lance em absurdidades e delírios nada doggy style, fica-nos o vídeo de Tango del Pecado com suas passagens hilárias – atenção ao sapo de coroa e ao tango final entre genro e sogro; são molduras excelentes para uma canção criativíssima, envolvente e sensual....e satânica.


Priscilla santos

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