David Lynch: club silencio

Se, como diz Chirs Rodley, "o cinema é a arte da ressonância", então David Lynch é dos filmakers capazes de provocar ecos longínquos e duradouros; nunca inofensivos. Aterradores. A sintetização de Rhodley cabe magnificamente em toda série de símbolos e mistérios que nos incitam a pensar, refletir e lembrar continuamente sobre as cenas, diálogos e desencadeamentos que constituem um filme como Mulholland Drive e a antológica cena do Club Silencio.


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Se, como diz Chris Rodley, "o cinema é a arte da ressonância", então David Lynch é dos filmakers capazes de provocar ecos longínquos e duradouros; nunca inofensivos. Aterradores. A sintetização de Rhodley cabe magnificamente em toda série de símbolos e mistérios que nos incitam a pensar, refletir e lembrar continuamente sobre as cenas, diálogos e desencadeamentos que constituem um filme como Mulholland Drive e a antológica cena do Club Silencio.

As particularidades-mores do filme Mulholand Drive, numa vista imediata, são a sua narrativa e seu aspecto visual/estético. A questão da narrativa pode ser aqui nosso foco: a tomada do Club Silencio é tão poderosa porque marca o ponto crítico da história do filme: a frágil linha lógica que o espectador, que nós, traçamos como sendo nosso entendimento do que se passou até então – em esquemas sem relações profundas entre si – passa a valer um pouco menos que nada porque a racionalidade que insistia em nos acompanhar até aquele minuto, agregando as informações, é feito inútil. Não se trata de um recurso de revelação simplesmente aos moldes M. Night Shyamalan, não, longíssimo disso. Na verdade é uma armadilha, um arrastamento.

Quando o mágico proclama que no hay banda que todo es uma ilusion, é como o prenúncio de um segredo a ser revelado, mas (abismada) não um segredo de algum personagem, não o segredo de Diane, Camilla ou Rita, mas os nossos, os meus. Ou seja, uma não-narrativa surge bem diante dos nossos olhos, uma abstração cujo conteúdo vai depender de como eu e você vamos ser obrigados a preenchê-lo. Falando dessa forma, parece até que insisto numa manipulação e eu insisto. Penso: a cena do Club Silencio é uma indução ao transe ou à realidade?

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Percebem-se métodos de Lynch para a condução dessa narrativa em dois níveis; métodos claros, estudados numa base freudiana, numas reminiscências kafkianas. Basicamente, a partir do Club Silencio ficamos sabendo que talvez todo o filme até então havia sido uma ilusão criada por alguém, que o filme não tem muitos compromissos com a lógica concreta, mas com a lógica dos sonhos. Então tudo o que está presente na encenação, todos os objetos, cores, sons e palavras seriam montagens de algo, representações de algo que encontraria correspondência no mundo real. Conjecturamos sobre o que significa a mulher de cabelos azuis, por que um trombone, por que Rita/Camilla havia sussurrado “silêncio” na noite anterior enquanto dormia? Que tipo de lugar maior ou esquema maior aquele espaço representa?

No segundo plano o que ocorre? Ocorre que simplesmente não encontramos essas referências. São partes faltantes, são um mistério, e é justo para lá que as atenções de nosso subconsciente são dirigidas, preenchendo os campos vazios com informações que não pedimos para serem levantadas. O filme se re-mostra como um ambiente artificial de permissividade, de exposição compulsória dos desejos, onde a conjuração das pequenas peças desconexas irá formar a massa informe e de lógica própria que é o sonho. Logo, a segunda camada narrativa (não-narração) é feita por nós mesmos, por nossos próprios anseios, segredos e delírios feitos inesperadamente reais - embora saibamos que aquilo é cinema, que é tudo uma ilusão. Daí tantas pessoas pensarem Mulholland Drive como um filme de terror, outras acham que vão enlouquecer... a sensação é nauseante e tão nítida, tão persistente, que se faz ressonância permanente, numa experiência marcante e íntima que acessamos aqui em obvious e a reforçamos para o terror de alguns e o deleite de todos.

Epílogo Como a intenção aqui foi apenas a de destacar aspectos muito particulares que envolvem a cena e o mistério se desdobra em inúmeros outros, uma visita ao sítio oficial do filme irá com certeza trazer detalhes impressionantes, além de ensaios de cineastas e fãs (em tempo, como sou tanto medrosa com relação ao Lynch, não entraria neste link antes de ir dormir). Chris Rhodley é editor e autor do livro Lynch on Lynch, livro de 1997 lançado pela Faber&Faber.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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