Malika Oufkir: 20 anos de prisão


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Por puro acaso veio parar-me às mãos a autobiografia de Malika Oufkir, escrita em colaboração com Michèle Fitoussi. Malika é a filha mais velha do general Oufkir, que, em 1972, foi cabecilha de um atentado contra Hassan II, pai do actual rei de Marrocos. Oufkir foi morto e a mulher e os seis filhos foram mantidos na prisão durante 20 anos devido ao crime do pai.

Mas a história extraordinária de Malika começa muito antes. Foi filha adoptiva do rei Mohamed V, pai de Hassan II. O rei pediu ao general Oufkir, um dos seus braços direitos, e à mulher deste autorização para adoptar Malika, que iria fazer companhia e ser educada juntamente com a princesa Lalla Mina, sua filha. Naturalmente, o pedido real não foi recusado.

A vida de Malika é um conto de fadas transformado em terror. Viveu até aos 17 anos nos palácios reais, mimada, no meio de todo o luxo que se pode imaginar - e, segundo conta, contrariada, a querer a sua família original, uma vida normal, desejosa de poder sair do palácio onde vivia como prisioneira, vendo o mundo exterior pelos vidros fumados de um automóvel. Malika foi educada por uma governanta alsaciana, rígida, e cresceu no meio das concubinas e dos escravos do rei, nas tradições tantas vezes medievais daquele mundo fechado.

O atentado de 1972 marca o fim do conto de fadas. Nessa altura, Malika já tinha sido autorizada a voltar para casa (estamos no reinado de Hassan II) e continuava a vida de luxo, mas agora em família. Viajava, frequentava discotecas às escondidas, ia à Europa fazer compras e tudo o mais que o muito dinheiro da sua família lhe permitia. Ainda, e sempre, vigiada e controlada por polícias e guarda-costas.

O atentado falha e Oufkir morre, oficialmente por "suicídio". A vingança do rei estende-se a toda a família: a mulher de Oufkir e os seis filhos, de idades entre os 2 e os 18 anos, são levados para uma prisão. Irão permanecer prisioneiros durante 20 anos, com as condições de detenção a degradarem-se até a um ponto que era a garantia de uma morte lenta: fome, sede, o calor e frio insuportáveis do deserto, ausência de qualquer tipo de cuidado médico, sujeição a todas as pestes (parasitas, ratos, escorpiões, cobras), e, a partir de certa altura, isolamento de cada membro da família em células separadas, sem poderem ver-se durante anos (ainda assim, os Oufkir criam um engenhoso sistema de comunicação graças a um transístor que conseguem manter escondido dos guardas).

São 20 anos de vida perdida para todos. Malika, com 18 anos e meio na altura em que é presa pelos crimes do pai, sente a cada passo que o melhor período da sua vida - em que teria estudado, viajado, amado, formado uma família - lhe é roubado. Os irmãos perdem a infância, a adolescência. A violência brutal, física e emocional, a que são sujeitos pelas condições da prisão, deixa-lhes sequelas para toda a vida.

Incrivelmente, conseguem sobreviver a tudo: doenças, subnutrição, greves de fome e até tentativas de suicídio.

Ao fim de 11 anos em Bir-Jdid, a pior das várias prisões, quatro dos irmãos conseguem evadir-se através de um túnel cavado com a ajuda de uma colher e da tampa de uma lata de sardinhas. Após alguns dias de fuga pelo país, contactam uma rádio francesa; a partir daí, a pressão da comunidade internacional é demasiada e o rei acaba por libertar a restante família - ainda assim, mantendo-os em prisão domiciliária, em mais uma gaiola dourada, durante alguns anos.

O relato é impressionante. É um texto cheio de lucidez, com uma minúcia de emoções muito própria de quem esteve demasiado tempo a sós consigo mesmo e viu o desespero mais fundo do que a maioria das pessoas. E que manteve, no meio desse desespero, um sentido de humor salvador. É também um texto que apela a um certo voyeurismo, e Malika alimenta essa relação com o leitor - a descrição do harém, das festas sumptuosas no palácio, do convívio com o rei; a intimidade dos sentimentos e das relações familiares; e o espectáculo aterrorizante da violência e do sofrimento expostos. Mas pode-se escrever e ler sobre o sofrimento pessoal de outra forma? Várias vezes, enquanto lia (sentindo-me culpada pela avidez com que o fazia) dava por mim a parar e a dizer-me que aquilo era verdade, eram pessoas reais, ainda vivas, no final do século XX. Que aquilo se tinha passado muito perto, enquanto eu levava a minha infância normal, comia, dormia, tinha uma família, ia à escola e tinha Verões felizes.

O livro deixa também algumas dúvidas no que toca à verosimilhança dos factos e aos papéis de cada um. Até que ponto a versão de Malika é verdadeira - ou, questão mais desconfortável, honesta? Podemos optar por não acreditar em certos episódios rocambolescos ou por duvidar da dureza das condições da prisão, pelo menos em alguns detalhes. Podemos suspeitar de algum espírito de vingança nesta biografia. Mas se pensarmos na ambiguidade que envolve toda a vida de Malika - a começar pelo facto de o seu pai biológico ter tentado matar o seu pai adoptivo (e Malika gostava do rei), e de este por seu turno ter morto o primeiro e ter encarcerado a própria filha adoptiva - talvez a luz dúbia da história se torne menos desconfortável ao nosso olhar.

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A edição que tenho, de bolso, é da editora Grasset (1999), colecção Le Livre de Poche, com o título francês La Prisonnière. O título inglês, meio hollywoodesco, é Stolen Lives - Twenty Years in a Desert Jail. No Brasil, a Companhia das Letras publicou a obra com o título Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei.


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