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O Dinheiro é uma Tecnologia

publicado em tecnologia por luis soares | 5 comentários

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Por ser Natal, penso muito em dinheiro. Não é só o subsídio que chegou e já se foi, são os presentes e o seu custo galopante e aquele momento perverso em que se acha poder medir uma relação (familiar, de amizade, profissional) pelo dinheiro investido nos presentes. Os presentes são como o vinho. Geralmente os mais caros são melhores, mas isso nem sempre é verdade. E o que conta é a intenção, no vinho também.

As introduções natalícias ficam bem nesta época, mas o que eu queria mesmo dizer é que me pareceu noutro dia que o dinheiro era só mais uma forma de tecnologia, particularmente sofisticada, por vezes obscena e evidente, outras subtil e de forma quase imperceptível. Vale a pena dizer que tenho algumas opiniões sobre o que define ou não uma tecnologia.

Eu não acredito que a tecnologia seja um instrumento, que esteja ao serviço do homem que “decide” o que fazer com ela. Não acredito na inocência da tecnologia e, mais ainda, não acredito numa visão puramente mecanicista da tecnologia, isto é que a tecnologia “serve” para alguma coisa, que encerra uma causa e consequência perfeitamente racional e definida. É a velha conversa sobre as armas: as armas não matam, as pessoas é que matam. O que é que isso interessa? Por essa ordem de ideias os martelos não martelam e os carros não atropelam. É só uma questão de gramática.

É mais fácil dizer isto no princípio do séc. XXI do que digamos na Idade Média ou no séc. XVII, mas hoje a tecnologia é mais uma segunda natureza: precisamos dela como precisamos de nos alimentar e de reproduzir, mas temos com ela uma relação complexa de necessidade e liberdade. A civilização (ocidental pelo menos) construiu-se em parte sobre a nossa defesa contra a natureza e a sua violência (roupa, casas, leis, etc.) fosse ela exterior ou interior ao ser humano. Hoje sabemos que em princípio devemos vestir roupa para não ter frio e tentar não matar outros seres humanos.

A tecnologia e a sua preponderância crescente na nossa sociedade parecem ser só a concretização do projecto moderno da explicação do natural, que seria domado, resolvido, contrariado, pela omnipresença da razão, da ciência, da tecnologia. E contudo, olhem em volta, hoje: a tecnologia mobilizou por completo a nossa sociedade e o nosso domínio sobre ela é, nos melhores momentos, parcial e difícil. E como resolvemos as nossas dificuldades com a tecnologia? Inventando mais tecnologia.

Daqui a podermos olhar a coisa de outra maneira e dizer que na verdade a tecnologia só nos usa para se reproduzir, vai um passo curto. Um exemplo apenas: a Web cresce alimentada por programadores. E está cada vez mais complexa, indomável e inteligente.

E o dinheiro? Bom, como este post já vai longo, experimentem só relê-lo trocando a palavra “tecnologia” por “dinheiro” e vão perceber o que quero dizer.

lsoares
Sobre o autor: luis soares escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania. Saiba como fazer parte da obvious.

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5 comentários

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Mateus

Peço desculpa, talvez seja só uma questão de gramática, mas trocando a palavra “tecnologia” por “crédito” percebe-se melhor o que quer dizer.

Simplesmente perfeito!
E sim, realmente, relendo com a palavra "dinheiro", ele continua com tanto sentido quanto da primeira vez, senão mais.

Abs

Muito bem colocado, Luis. Aliás é o tipo de assunto que renderia estudos, dissertações e horas de debate. Não sei se é pertinente ao post, mas após lê-lo começei a filosofar um pouco sobre a natureza humana: nossas fragilidades, idiossincrasias, maravilhas.
Parece-me que muitas vezes perdemos nossa identidade, ou melhor ainda, estamos como que fragmentados. Um grande mosaico romano. Pulverizados pela tecnologia, dinheiro, enfim por nós mesmos.
Ícaros que somos pensamos em ir cada vez mais longe. Será que nossas asas de cera não estão derretendo?
Abraços!

seven

Sim, vamos filosofar um pouco, Kriz. A procura da tecnologia está na natureza humana pelo simples facto de pensar e querer modificar o Natural. Há quem lhe chame Arte, num sentido lato, por ser artificial aliás, o étimo é o mesmo. E, já que falamos disso, "ars" e "tekno" confundiam-se no grego antigo: a Arte era uma tecnologia.
E o dinheiro também? Claro.

Eu já vejo o dinheiro como uma tecnologia democrática e libertadora. Ele nos livrou da ineficiência do escambo e da injustiça da servidão. Ele permitiu que as pessoas fossem recompensadas pelo seu trabalho na exata medida em que beneficiavam a sua comunidade, e abriu caminho para um infinidade de outras tecnologias que nos permitem hoje gastar nosso tempo com atividades como manter um blog, quando antes nossos antepassados (com raras exceções) tinham de trabalhar da hora em que acordavam até a hora que iam se deitar para não morrer de fome.

O dinheiro não é uma tecnologia perfeita. Nós ainda passamos 40 horas por semana trabalhando pela nossa subsistência, na forma abstrata de euros, dólares, ou reais. Gente que ativamente prejudica a sociedade muitas vezes recebe muito mais que os mais diligentes trabalhadores. O sistema recompensa aqueles que dão aos outros o que eles querem, e não o que precisam. Mas com todas essas falhas, ele é nossa melhor alternativa. Tanto é que, mesmo nos mais ferrenhos regimes comunistas, o dinheiro continua a circular.

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