o fim da televisão como a conhecemos


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Noutro dia, embalado pelo aquecimento central e o ritmo modorrento de uma tarde de domingo, adormeci e sonhei que a greve dos argumentistas americanos não ia acabar nunca. Nem foi um mau sonho, mas para aqueles senhores que mandam na indústria do entretenimento, acho que seria mais um pesadelo.

Primeiro que tudo um “disclaimer”: eu trabalho naquela zona nebulosa, frequentemente envolta num nevoeiro espesso, em que a Internet e a Televisão se andam a intersectar (as descaradas). Passo os dias às apalpadelas a tentar descobrir que rumo tomar e por isso é natural que acabe a sonhar com isso. Este não é, por isso, um post inocente, mas sim um post de “mãos na massa”.

É por isso que gosto de falar de Web 2.0, do poder da comunidade, da forma como qualquer pessoa hoje em dia faz um filme qualquer, mesmo que na verdade não seja um filme (muito menos cinema), mas apenas um ficheiro de vídeo de 320x240 pixels repetindo e desmultiplicando os milhões de lugares comuns que já circulam na rede. Quando acho que este “modelo” é uma coisa com o mínimo de interesse, pouco me interessa a greve dos argumentistas, não é por isso que nos falta entretenimento.

Noutras alturas do dia, contudo (mais pela noite, geralmente), sou autor de escritos variados e acredito que a criação é a coisa mais egoísta, pessoal e íntima do mundo e que só alguns conseguem ter o inchaço de ego suficiente para ultrapassar a timidez de revelar um mundo interior. Menos ainda o fazem com qualidade, por isso aplicar o modelo 2.0 ao entretenimento é um suicídio e devíamos deixar a televisão nas mãos de quem sabe: os tais argumentistas em greve.

É aqui que entra o sonho. Imaginem que os argumentistas se fartavam de negociar para resolver a questão da greve e decidiam migrar em massa para a Net... Escreveriam ficção original, o melhor humor, os dramas mais humanos e os silêncios mais perturbadores. Mas ignorariam as cadeias de televisão, os produtores de DVDs, os serviços de Video On Demand, os operadores móveis e os seus irritantes ringtones. E encontrariam quem lhes filmasse as histórias. Ou eles próprios pegariam em “armas digitais” e fariam em imagem as suas palavras.

As pessoas que ainda vêm televisão seguiriam o aroma de uma boa história para a Internet. A Internet deixaria de ser o reino do vídeo-do-gatinho-bonito-a-roçar-se-no-bebé ou da gaja-burra-no-concurso-de-tv. E quem sabe mesmo, algures as histórias poderiam verdadeiramente ser multimédia, libertar-se do 16/9 ou do 4/3 e viver em blogs, perfis, sítios obscuros e antros de popularidade.

Devo acreditar neste sonho?


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
Saiba como escrever na obvious.
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