Os amigos da onça e os amigos de Peniche


 Amigo Amigos Onca Peniche Cruzeiro Revista Pericles Andrade Maranhao

A língua portuguesa é particularmente fértil em expressões idiomáticas derivadas essencialmente de lendas e de vivências do quotidiano, que muitas vezes se perdem na origem do tempo e que vão perdurando no léxico através dos anos, sem que contudo, frequentemente, se consiga com precisão explicar a sua origem.

As curiosas expressões “Amigo da Onça”, utilizada simultaneamente no Brasil e em Portugal, e “Amigo de Peniche”, utilizada somente em Portugal, são o exemplo da dificuldade corrente em datar e precisar a origem destas eufemísticas formas de expressão tão típicas da maneira de ser luso-brasileira. Em ultima análise o significado de ambas é idêntico e refere-se a um falso amigo, alguém que apenas está interessado em receber algo às nossas custas e nada nos dá em troca.

Amigo da Onça” suscita nos dois países explicações contraditórias: uma delas relaciona-a com o acto de “cravar” tabaco quando, em tempos que há muito já lá vão, o tabaco mais barato era o de enrolar em mortalhas que era vendido em embalagens com o peso de uma onça, o que terá levado a que a própria embalagem assumisse o nome de onça. Quem abordava alguém para “cravar” tabaco seria, portanto, mais amigo da onça que da pessoa.

Outras não menos verosímeis e interessantes explicações são as que a relacionam com duas anedotas muito populares em tempos:

Um mentiroso que, contando as suas pouco credíveis façanhas, dizia ter feito gato-sapato da onça que o atacara, é questionado da veracidade das mesmas por um ouvinte, que obtém do mentiroso como resposta à sua interpelação um sonoro "Afinal és meu amigo ou amigo da onça?".

Igualmente credível e envolvendo onça é a anedota que deriva do diálogo entre dois circunstantes: “- O que faria você se estivesse na selva e uma onça aparecesse na sua frente? - Dava um tiro nela. - E se você não tivesse uma arma de fogo? - Tentava furá-la com o meu facão. - E se você não tivesse um facão? - Apanhava qualquer coisa, como um pedaço de pau, para me defender. - E se não tivesse um pedaço de pau por perto? - Procurava subir na árvore mais próxima. - E se não tivesse nenhuma árvore no lugar? - Saía correndo. - E se você estivesse paralisado pelo medo? Aí, o outro, já aborrecido, retruca: - Afinal, você é meu amigo, ou amigo da onça?”

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Curiosamente, no país irmão, esta anedota serviu de inspiração a Leão Gondim de Oliveira, director da então emergente revista "O Cruzeiro", para baptizar um personagem célebre nos anos 40 e 50 saido da pena do desenhador pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, que recebeu uma encomenda de Leão Gondim para criar um personagem que traduzisse "a verve típica e o humor carioca", que captasse "o estado de espírito daquele que vive no Rio de Janeiro, não importando onde tenha nascido".

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Assim nasceu a personagem “Amigo da Onça”, cujas "tiras de quadrinhos" viriam a ser publicadas com um sucesso incrível durante vinte anos e que durante esse tempo serviu para achincalhar instituições como o casamento, o exército e a hipocrisia social, cometendo as maiores maldades que puseram em delírio os leitores da época: enganar um incauto transeunte na rua, “pregar uma peça” na sogra, barafustar com o amigo que pede dinheiro emprestado, estender uma armadilha para o chefe mal-humorado e outras pilhérias de um humor simples, directo, quase naif, que levaram este baixinho de cabelo penteado para trás à custa de brilhantina, "summer jacket", bigode fininho, cara de corvo e olhar de carneiro mal morto, a ser o responsável por “O Cruzeiro” ter colocado dentro da revista as tiras de banda desenhada que antes se quedavam pelas capa e contracapa, evitando assim que as pessoas folheassem a revista sem pagar.

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Muito mais prosaica mas não menos interessante e historicamente correcta é a explicação avançada para o epíteto “Amigo de Peniche”, que remonta aos primórdios da conhecida “malapata” nacionalista dos portugueses para com os “bifes", os britânicos portanto, quantas vezes consubstanciada numa “relação mais ódio que amor” e que tem hoje no futebol o seu alter ego.

Decorria à época a III Invasão Napoleónica, a Família Real Portuguesa abandonava o país em fuga para o Brasil e, sendo Portugal e a Inglaterra aliados desde há séculos e a Inglaterra a principal interessada em ter acesso aos principais portos marítimos internacionais que a França lhe queria bloquear, era de todo o interesse que o porto de Lisboa se mantivesse aberto e acessível ao comércio marítimo inglês.

Assim, os ingleses desembarcaram em Peniche dizendo que vinham prestar ajuda a Portugal, mas o que ficou na história portuguesa como um espinho cravado e nunca extirpado foi que mal desembarcaram as forças inglesas comandadas por Arthur Wellesley, iniciaram de imediato pilhagens e todo o género de desmandos sobre as gentes portuguesas. De Peniche avançaram até Lisboa derrotando as tropas francesas de Masséna nas Linhas de Torres (Torres Vedras). Desde esse tempo, os ingleses passaram a ser pouco considerados pelos portugueses, desconsideração essa que ainda mais se acentuou na época do Ultimato, e a expressão "Amigos de Peniche" passou então a designar todos os falsos amigos, os amigos da “onça inglesa”.

Elucidativo.


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