
Hoje em dia ter um automóvel é ter um peso na consciência. É contribuir para o buraco na camada de ozono, para o aquecimento global, para o congestionamento do tráfego urbano e para a crise do petróleo. Ter dois automóveis, então, mesmo que sejam imprescindíveis para o dia a dia de uma família, é quase um crime! Para apaziguar a nossa culpa colectiva, a indústria automóvel nossa amiga desdobra-se em propostas de veículos "verdes", amigos do ambiente. São automóveis de aspecto biomórfico e gastrópode, tímido, semelhantes a amebas com rodas. À excepção dos concept cars e dos modelos desportivos topo de gama, o automóvel perdeu definitivamente o seu estatuto.
Mas houve tempos em que possuir um automóvel era um luxo. Era fazer parte do american dream. Os novos modelos ostentavam-se orgulhosamente como um troféu, enormes, cintilantes nas suas cores e aplicações cromadas, nos seus assentos em cabedal e nos seus motores devoradores de gasolina. É verdade que a gasolina era barata, as estradas largas e os engarrafamentos raros. A poluição era apenas uma pequena nuvem no horizonte. O automóvel tinha uma conotação francamente positiva.
A publicidade dessa altura - final dos anos 50' - apresentava-nos belos desenhos coloridos onde se podia ver os últimos modelos saídos das linhas de montagem das grandes marcas. Os artistas gráficos caprichavam no desenho e faziam vender. Os americanos lideravam e não era por falta de modéstia. As mais belas ilustrações eram as da Ford, da Buick, da Oldsmobile ou da Chevrolet, os gigantes de Detroit.
À volta destes automóveis, indivíduos estereotipados vestidos com elegância e em poses descontraídas protagonizavam famílias felizes em viagem, trabalho ou lazer. Não havia pobreza, não havia conflitos raciais, não havia guerra nestes desenhos; tudo era prazer, tudo era sucesso, tudo era alegria de viver. Fumar era normal e dava estatuto, nunca doenças. Não se falava da "Caça às Bruxas" do senador McCarthy. Dir-se-ia que vivíamos numa sociedade perfeita e que o automóvel era o instrumento e a face mais visível dessa transformação.
Sonhemos então e fiquemos com estes desenhos dignos de um coleccionador. Admiremo-los não apenas pela sua beleza intrínseca mas também pelo testemunho de uma época onde tudo parecia agradável e o futuro se apresentava risonho. Pouco depois o sonho acabou. Saudades.





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24 comentários
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Bjr
Magníficos desenhos. Curiosamente transmitem uma tranquilidade descomprometida. Hoje é tudo demasiado elaborado... soa a falsa felicidade.
seven
Não me importava de ter vivido naquela época mesmo que isso significasse ter hoje mais uma dezena de anos - mas nos EUA, claro! ;)
Abigobaldo
Ah, o American Way of Life... Me lembra o Milagre Econômico daqui...
Como deve ser bom viver numa sociedade sem esse tráfego de informações de hoje...
Kriz
O post me remeteu magicamente ao "Fusquinha 66" de um tio meu. Realmente uma lembrança mágica, pois me pergunto até hoje como cabiam 4 adultos e 4 crianças, mais "kit" alimentação, roupas e brinquedos em nossas viagens à Atibaia!
Mas com certeza, foram esses momentos bem década de 60/70 que fizeram da minha infância um cartão postal único.
seven
Pois é mas esses momentos não voltam mais... Fiquemo-nos pelos cartazes e pelos kits em miniatura dos automóveis de então.
Mateus
Belo mundo de aparências! Nem um negro à vista, ou outro humano de raça diferente. O branco era lindo! Sonhemos, pois....
bjr
nem pobreza Mateus... mas como disse, acho que a forma de transmitir a mensagem, seja ela uma mera aparência, acaba por ser menos artificial do que agora, não concorda?
Fernando Sampaio
Depois que o Al Gore ganhou o Nobel, nosso futuro ecologicamente correto nos privará de ter um carrão, comer carne, fumar, beber...Que vida é essa...
seven
É isso, Fernando. Parece que hoje em dia tudo faz mal... viver faz mal! Já pensou que também isso pode ser propaganda, de sentido contrário mas igualmente propaganda?
Obrigado pelo seu comentário.
Dina
"Viver faz mal" daria o slogan perfeito para uma agência funerária.
As imagens são sublimes, de facto. Porém, não concordo nada com o facto de se achar que agora já nem é preciso ou que não podemos ter um carrão. Se não tivesse um calhambeque, digo-vos que estaria neste momento geladinha até aos ossos e mortinha de tédio. Já por diversas vezes a coisa esteve feia. Até fico com taquicardia quando me lembro, apre! E a culpa nem sequer foi minha. Valeu-me o sistema de travagem.
Em suma, eu gosto de me sentir protegida e um carrão fá-lo quase na perfeição. Quanto à cena da poluição... a BMW lançou há pouco tempo o “7 Hydrogen” (não és tu). Penso que em 2090, a malta poderá atestar os carros com água da torneira. Nessa altura, talvez entre num em estado líquido. :[
seven
Ok, voltamos a falar então em 2090 ;)
Dina
E se te evaporas?
seven
E se tu congelas?
electricpower
Aqui na europa também houve um carro que apostou na publicidade, tornando-se um sinonimo de carro futurista, que nem mesmo os seus 50 anos lhe tiraram tal fama.
http://storm.tocmp.com/citroends1960.htm
http://www.viewimages.com/Search.aspx?mid=338154&epmid=2&partner=Google
kennedy rafael
já não tenho carro a mais de 7 anos. ando de bicicleta, a pé, de carona e as vezes de ônibus. mas to doidim pra compra um fusquinha 66. quem sabe num fabricam um movido a água. a água também num pode. estamos próximos da escasses. o que fazer, vamos pra era dos flinstones e mover nossas máquinas com os pés descalços pra não gastar borracha feita de petróleo. Yabadabadooo!!!
seven
O Citroen DS, isso sim, era um automóvel e não um meio de transporte! Magníficos os links, meu caro Electricpower ;)
Kennedy: Yabadabadoo para si também! :D
Dina
Por falar em carros antigos, já te contei que o carro do meu tetravô está no museu do Caramulo, Seven?
Tens de lá ir espereitar, pá.
;)
Dina
Opá, tu não "espereites" que faz mal à vista...phone-ix!
Raismalixem...
:S
Vai antes espreitar, óquei?
:S
seven
Conheço perfeitamente o museu do Caramulo. Qual é o carro?
Rubens
Peso na consciencia por possuir um automovel ou mais? Francamente... Pura bobagem... Quem devia ter peso na consciencia é quem fica fazendo filhos impunemente, contribuindo para aumentar ainda mais a população humana sobre a Terra, isso sim... 8-P
Lu
Meu querido, boa noite.
Esse texto é de sua autoria? Posso utilizá-lo em um trabalho escolar?
Qual é seu nome (para que eu cite corretamente os créditos?)
Muito obrigada.
O texto é um original nosso. Basta que cite apenas "obvious magazine". Bom trabalho, Lu.
Oswaldo Alano
Muito interessante e compacta sua visão via automovel dos anos 50, adorei. Faltou os Cadillac's e os Thunderbirds, mas gostei muito.
Adoro essa época desde que li o Jack Kerouak, aquele do "On the road".
Tinha também, naquela época, a Guerra Fria, né, enfim nada é perfeito.
carlos edu
O TEXTO É ÓTIMO,O QUE ME SURPREENDE É A SUPERFICIALIDADE DAS PROPAGANDAS DAQUELA ÉPOCA.