Viagens #28: o senhor Bachir



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Apanhou-nos literalmente à saída da curva. Era o velhinho marroquino perfeito: magro e seco, com uma djelaba cor de canela, um daqueles chapéus brancos cilíndricos, barba grisalha e bem aparada, olhos pequenos e brilhantes, lábios muito bem desenhados, de um rosa acastanhado, e um sorriso permanente.

-Bom dia!

Eu fui a última a chegar. Os dois casais - um de franceses com cerca de 60 anos, outro de holandeses na casa dos 20 - já tinham sido apanhados na conversa.

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O homem, Bachir de seu nome, Sr. Bachir, fazia as perguntas do costume. Creio que foi a única pessoa, tirando um taxista e o dono de um café, que vimos em todo o oásis - uma espécie de selva de palmeiras, figueiras, romãzeiras e videiras atravessada por uma estrada e um ribeiro, apertados num desfiladeiro de granito avermelhado com paredes altíssimas, onde o sol deve deixar de se ver a partir das três ou quatro da tarde.

- Querem tâmaras? Venham buscar tâmaras! - e fez-nos sinal, avançando energicamente para uma palmeira baixa ao lado da casa.

Hesitámos, mas ele foi mais rápido. Empoleirou-se num caixote de plástico e começou a colhê-las.

- Já chega - dizíamos nos.

- Ora! - interrompia ele, estendendo-nos as mãos cheias - quem vai comer estas tâmaras todas? - Pode vendê-las no souk - arrisquei eu.

Olhou para mim e fez um risinho, que ouvimos muitas outras vezes ao longo do encontro, um 'hiee, hiee, hiee' alegre e discreto de quem sabe uma piada nova.

- Eu agora já não preciso de dinheiro - respondeu-me.

Inveja.

E do cimo do caixote, que abanava perigosamente de cada vez que ele puxava os cachos, contou-nos a sua vida. Tinha 80 anos. Tinha vivido vários anos em França, onde estivera preso e tinha sido solto depois de enviar uma carta a alguém com poder, explicando que não viera fazer política, mas sim ganhar o seu pão. Tinha sido camionista. Correra o Norte de África - Marrocos, Tunísia, Líbia, Egipto. Tinha dez filhos, nenhum vivia ali.

- Ó velho! - disse, chamando o francês, quase 20 anos mais novo que ele - anda lá apanhar tâmaras, vá.

Depois olhou para o holandês, quase indignado:

- Jovem, o que é que faz ai de mãos nos bolsos? Suba ao caixote!

Explicámos que o holandês não percebia francês; traduzimos-lhe a ordem do Sr. Bachir, mas ele continuou de mãos nos bolsos, boquiaberto e inútil.

Não aceitámos tomar um café, mas vimos as fotografias. A primeira, que colocou cuidadosamente à parte, era do rei com um dos filhos ao colo. Contou histórias de caça. Antigamente, havia ali gazelas. Agora eram poucas, mas da próxima vez, dizia ao francês, da próxima vez que aqui passares vamos à caça. O francês dizia que sim, convicto.

Como que a provar as histórias de caça, as fotografias: ele e a mulher, muito gorda e de buço cerrado, ao pé de um alguidar cheio de pedaços de carne. Cada um segurava uma cabeça de gazela com cornos alongados, e os olhos dos animais, por causa do flash da máquina, eram de um verde fluorescente, a brilhar muito naquela cozinha ou arrecadação sombria. Outra: o senhor Bachir, com um grande sorriso e uma carcaça de gazela inteira, esfolada, ao colo, a entrar em casa como se carregasse a noiva. Numa mesa ao lado, mais uma vez, a cabeça da gazela.

E claro, tivemos de visitar a casa. Suponho que pelo menos os holandeses nunca tivessem posto os pés dentro de uma casa marroquina, dessas numa aldeia no meio de quase nada. E a casa do Sr. Bachir, para acentuar a impressão, era curiosamente cheia de coisas - bricabraque, montes de roupa, sapatos, objectos antigos, ferramentas, fotografias, tudo organizado (quero crer que sim) segundo uma ordem incompreensível para leigos. O terraço estava coberto de tâmaras ao sol, e ao lado um homem pintava uma parede, ele mesmo já quase da cor da parede, cheio de minúsculas pintas na roupa, na cara e nas mãos.

- Entrem aí! Entrem aí! - disse o Sr. Bachir com o ar infantil de quem nos prepara uma surpresa fabulosa. Eu entrei à frente: era, a julgar pelo colchão encostado a uma das pontas, o quarto dele. Na outra ponta, montes de tapetes e tecidos e sabe Deus que mais. Procurei, mas não vi nada que justificasse a excitação dele. Saí para dar a vez aos outros.

- Eu durmo ai! Hiee, hiee, hiee! - disse o Sr. Bachir, com os seus olhinhos muito brilhantes e a dentadura perfeita.

O Sr. Bachir deixou-me fotografá-lo, com a promessa de lhe enviar a fotografia. Tenho assim a garantia de que os próximos turistas que ele apanhar no seu oásis vão ver, para além do rei, dos olhos mortos e fluorescentes e da carcaça ensanguentada da gazela, uma fotografia do Sr. Bachir a estender uma mão cheia de tâmaras - e imagino que lhes dirá, "a um holandês que nem sequer era capaz de subir a um caixote e a um velhinho francês que um dia destes há-de vir cá para irmos à caça."



Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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