A coragem do actor e as luzes da ribalta


 Casting Actores Actrizes Cinema Televisao Tv Teatro Series Novelas Filmes Representar Palco

Dizia o Seinfeld no seu número de stand up que o americano médio tinha mais medo de falar em público do que de morrer, o que queria dizer que num funeral, preferiam estar no caixão a fazer o elogio fúnebre. É uma estatística que já vi citada mais vezes e lembrei-me dela frequentemente ao assistir ao casting de jovens actores para uma série de ficção.

Eu continuo a ficar nervoso quando tenho de falar numa reunião realmente importante ou perante um conjunto de pessoas de dimensão superior ao da minha família que se reúne no Natal. Nem sequer sou muito sociável e só em ocasiões particulares suportarei partilhar a minha opinião com desconhecidos em presença. Bom, estou a exagerar, mas a verdade é que a coragem dos actores perante o público surpreende-me sempre. Há muitos anos atrás, nos idos dos anos 80, eu próprio fiz teatro, mas provavelmente era só inconsciência. O palco tem uma magia especial, claro, as câmaras também, sejam de televisão, sejam de cinema também. Nesse momento calculo que a coragem, o encanto, a magia, uma irracionalidade inebriante tome conta do verdadeiro actor. A minha pergunta é anterior e mais simples. O que leva um jovem (realmente jovem, menos de 20 anos) ou uma jovem, mais ou menos da mesma idade, a sentar-se numa cadeira solitária, em frente a três desconhecidos e uma câmara e, num monólogo tímido, a expor os seus medos e fragilidades? Não nas palavras que alguém escreveu, mas nas mãos retorcidas, na respiração difícil, no rubor que lhe sobe às bochechas. Do que vi, há dois conjuntos de motivos fundamentais. O primeiro é aquilo a que eu chamaria “vocação”, uma vontade e um à vontade reais com a nobre profissão de actor, uma capacidade de vestir outras peles e lhes dar voz, perceberem que um casting é isso e não o debitar a matéria decorada para um teste. Depois há os outros. Alguns até têm “jeito”, outros até dariam bons actores. Mas não é isso que os motiva. O que procuram é a luz da ribalta, é suportar o custo da fama, ser perseguidos por papparazzi, aparecer, ser conhecidos. E o que os faz crer que podem ir por aí? Um novo mundo de microcelebridades que a Internet gerou, um mundo 2.0 em que cada um se pode construir e à sua fama. Mas mais sobre isso noutra altura.


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Luis Soares