
Tendo pela primeira vez mudado de ano num fuso horário diferente da minha Lisboa natal, pus-me a pensar de quantas maneiras diferentes já apreciei uma cidade estrangeira e quantas mais me restam ainda por descobrir.
As primeiras vezes já quase se vão na memória, que a idade não perdoa, mas têm em comum a presença dos pais e o condicionamento quase total aos percursos por ele definidos, quase sempre turísticos e marcados pelos monumentos da praxe, alguns museus, algumas compras, hotéis quase sempre, excursões com guias espanhóis ou brasileiros. Assim conheci pela primeira vez Paris ou Londres. Mas se aí já tive oportunidade de voltar, a Milão, Veneza ou Florença, ainda espero ir um dia sozinho, sem esse condicionamento de “excursão”.
Depois comecei a visitar cidades em trabalho. Guardo uma memória chuvosa e apressada de Bruxelas, de voos ao raiar do dia e ao cair da noite, de chuva, vento e frio no percurso entre o aeroporto, o centro da cidade e entediantes salas de reuniões comunitárias. Espanto-me quando me falam do calor do centro, das cervejarias e dos restaurantes, da banda desenhada e das chocolaterias. Faltou-me essa experiência.
Mas a que é para mim a melhor maneira até agora de experimentar uma cidade é fazê-lo com quem nela viva. Estar numa casa particular, ir às compras ao supermercado, jantar em restaurantes que não vêm em guias, tomar copos em bares obscuros, ficar só a ver a televisão do dia ou ir ao cinema ver um filme que podia estar em exibição em qualquer outra cidade.
Só “habitando” uma cidade deixamos de reparar nos edifícios e nos monumentos e começamos a deixar-nos tomar pela sua vibração, nas poças de água e nos diálogos dos transeuntes, nos transportes públicos e no burburinho dos media. É sem dúvida a minha forma favorita de visitar uma cidade até agora. E começo a descobrir que é, mais do que uma questão circunstancial, um estado de espírito.
Falta-me, de facto, viver numa cidade estrangeira. Alguma vez o farei?
14 comentários
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Fernando Império
Belo texto! Concordo plenamente com o autor. Você só vive a cidade de fato conhecendo-a pelos seus moradores, com aqueles que fazem acontecer e não com aquele pacote pronto destinado aos turistas...
Keila Vieira
conhecer uma cidade é ser parte da sua cultura..do seu movimento..ser própria particularidade dela..e isso é possível apenas morando, como turista você é um anexo, quase um bárbaro com sua sintonina, pois tropeça na sintonia.
Luis Soares
Era essa ideia que eu queria transmitir e no entanto... Hoje ouvi um comentário que me deixou a pensar. Visitar cidades de forma "desorganizada" está muito na moda. Ir "à aventura" e descobrir a cidade por si, em a ajuda de guias ou agências. Será que cada um assim constrói de facto um percurso pessoal e único? Ou será que acabam apenas frustrados na sua experiência? Haverá bons e maus viajantes?
Inês
Talvez habitando uma cidade a consigamos conhecer mais ou menos, pois só assim conversamos com a cidade todos os dias durante um tempo considerado longo. Mas existe sempre surpresa, existem sempre becos desconhecidos com uma luminosidade e uma atmosfera diferente que nunca visitamos e que nem sequer imaginávamos a sua existência.
Na minha opinião a melhor forma de conhecermos uma cidade é mergulharmos nela de cabeça, perdermos-nos na sua teia de aranha, no seu emaranhado de ruas de uma forma deliberada, andarmos sem destino, sentirmos os cheiros, ouvirmos a voz da cidade, o seu barulho, respirarmos o seu ar.
seven
Hum... isto está a pedir que o tema "As cidades" seja tratado mais seriamente aqui no obvious...
M^^
Adorei o teu post! Sim, acho que só vivendo numa cidade, indo às compras, a uma qualquer repartição de finanças, uma estação de comboios, um parque, uma mercearia é que vivemos uma cidade. Estive em barcelona e não visitei as Ramblas, nem a Sagrada Familia, tive pouco tempo lá mas não queria ir para onde todos iam.
O meu maior sonho e objectivo é "viver" Nova Iorque, estou a tentar já juntar dinheiro e a planear ir. E quero mesmo ir algum tempo e ficar em casa de pessoas conhecidas para viver o dia a dia deles.
Adorei o post!Volto a dizer. Viajar é das melhores coisas da vida!
CJGil
A propósito de viagens:
O PREÇO DAS VIAGENS
Lembrei-me hoje de que já não viajo, em lazer, há muito tempo. Dois anos e alguns meses passaram sobre a última de algumas viagens que empreendi por esse mundo afora.
Instantes volvidos, tive a consciência epifanica de que não é bem assim. É que, paradoxalmente ou não, nunca deixei de viajar em lazer!... Aos sítios onde fui e que vivi regresso constantemente, sempre que necessito de me ausentar. Passo quase todos os dias largos minutos de deleite, sempre intenso, nesses pontos do orbe. Viajo à velocidade da luz de um ponto para o outro.
São pílulas de prazer de efeito perene, essas que não se encontram nas farmácias, mas nas agências de viagens!
A consciência leva-me a admitir que me enganava quando julgava altamente dispendiosos os meus devaneios viageiros. Caros?!...Não, do mais barato que há…,pois se só paguei uma vez e viajo sempre! Então, quando, pejado de prazer, falo delas aos meus amigos, o que é isto?... Se isto não é viajar em lazer!…
Menos de um cêntimo foi quanto me custou cada viagem; e, se viver muito, muito, muito – digo viver -, não temos moeda que se adapte ao preço.
P.S. A Agência Abreu ou outra da concorrência devia patrocinar-me. Não acham?
Vera
De facto o que melhor podemos absorver deste mundo é viajando...e se possível passar pela experiência de viver numa cidade, fora do nosso Portugalzito. Visitei Veneza pela 1 vez aos 15 anos com os meus pais, numa daquelas excursões organizadas...voltei lá passados 10 anos e fiquei durante 10 meses...foi a experiência mais enriquecidora que tive. Viver em Veneza, com Venezianos, é claramente mais estimulante do que visitar os monumentos e andar de gôndola. Recomendo vivamente.
Terramel
Bela foto essa da cidade ;) Poderia deixar o download da versão para wallpaper!
Abraços
tajana
As viagens tipo excursão são uma espécie de visita à Disneylândia; são a criação de uma fantasia em que comemos, do caldo confuso da cidade, apenas os bocados suculentos que ficam à tona, e que são os mesmos que os nossos amigos já comeram para podermos depois comparar com eles. Não têm nada a ver com conhecimento - são simples reconhecimento.
E hoje em dia já se vende também em pacote a "experiência autêntica", a "cidade real para além dos clichés turísticos". A verdade é que a maioria das grandes cidades ocidentais vive tanto do turismo que às vezes essa "autenticidade" é apenas mais uma encenação turística.
A viagem totalmente desorganizada, quanto a mim, só faz sentido quando se tem tempo. Se não, corres o risco de chegar ao fim e descobrir que, nos quatro dias que tiveste, de Lisboa só viste Telheiras. Eu gosto de fazer um reconhecimento da cidade, incluindo os seus clichés turísticos, no primeiro dia; isso já me dá geralmente para eliminar dos meus planos muita coisa que faz parte dos circuitos oficiais.
Também não sinto necessidade compulsiva de conhecer (no sentido quase bíblico de que aqui falamos) muitas cidades. É como com as pessoas.
seven
As viagens do tipo excursão deviam ser proibidas. São poluição cultural. Há uma maneira óptima de conhecer as cidades se se estiver interessado nisso: fazer uma primeira visita curta quase só exploratória; digerir na memória o que se viu durante algum tempo; regressar lá em força. Então sabe quase a "matar saudades". Eu gosto.
Anna
Que texto maravilhoso. Então é isto mesmo.E assim...
Lucas
"Because we don't know when we will die, we get to think of life as an inexhaustible well, yet everything happens only a certain number of times, and a very small number, really. How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply a part of your being that you can't even conceive of your life without it? Perhaps four or five times more, perhaps not even that. How many more times will you watch the full moon rise? Perhaps twenty. And yet it all seems limitless" - The Sheltering Sky
Francesca
Realmente, perfeito seu texto. Tenho um desejo de conhecer várias cidades desse mundo, mas teimo em conhecer apenas o superficial. Como você relatou, precisamos viver a cidade que desejamos tanto conhecê-la. Se não será a mesma coisa de está num livro com várias outras ao lado e com textos detalhados sobre ela. Apenas conheceremos seu superficial. Seu lado antigo. E não o agora.
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