Da universalidade dos ecrãs


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Um dos temas que mais tenho abordado neste blog, à laia de pirata de sabre nos dentes, é o da chamada Web 2.0 e das suas consequências e efeitos secundários. Visto que o microblogging e o microfilme foram já temas que passaram por aqui, achei que era boa altura para se falar da “microcelebridade”. Mas antes de tocar nesse tema num outro post, vou aproveitar para lhe fazer uma introdução.

Quando a televisão começou aos poucos a entrar pelas nossas salas, em versão de móvel radiofónico modificado, a sua natureza era ainda clara e solidamente da natureza da Sociedade do Espectáculo, isto é, o acesso ao lado de lá do ecrã estava reservado à sorte de uns poucos, à aura do famoso, que tanto podia terminar num casamento de sonho com um príncipe como num acidente de automóvel a grande velocidade. A televisão era só mais uma forma de entretenimento. Ao entrar-nos pela casa, contudo (coisa apenas reservada à aristocracia e afins até então), este novo aparelho começou aos poucos a mudar a própria natureza do entretenimento. Foi contudo preciso esperar até ao final do século XX para a banalização da tecnologia electrónica começar a revolucionar a caixa que mudou o mundo. Até então, se excluirmos a introdução da cor e a melhoria da fidelidade de som e imagem, pouco tinha mudado na tecnologia televisiva. O último quarto do século XX banalizou a câmara de vídeo, as consolas de jogos, o computador pessoal, os gravadores e leitores de vídeo domésticos. Todos estes aparelhos se ligam de uma forma ou outra à televisão e proporcionaram, como contexto, duas mudanças fundamentais: passou a haver cada vez mais televisões dentro de casa; “aparecer” no televisor começou a tornar-se uma coisa mais “fácil”.

 Televisao Tv Ecran Sociedade Tecnologia Entretenimento É neste movimento que a televisão abandona o seu estatuto de lareira electrónica familiar e se multiplica e banaliza pela casa, num sem fim de ecrãs. Mais que isso, este processo de banalização é rapidamente incorporado pela indústria sob a forma do omnipresente “reality show”, hoje levado ao seu expoente máximo, dando a todos e a cada um a oportunidade de passar de zero a estrela por via da humilhação ou superação pública. É claro que há aqui uns saltos de lógica, mas a verdade é que a “celebridade” começou a deixar de ser do domínio dos semi-deuses inatingíveis para o domínio dos eleitos. Democratizou-se. E assim se preparava o passo seguinte, a revolução digital. Se a mudança de século tinha banalizado o televisor, o início deste banalizou a nossa “interacção com ecrãs” e a Web 2.0 deu-nos definitivamente as ferramentas para nos passarmos para o lado de lá do ecrã e iniciarmos uma nova era na história da celebridade no ecrã, a era da “microcelebridade”.

Mas mais sobre isso num próximo post...


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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