A Lapa e os desconhecidos no espaço de atração

Abri a lata de cerveja, conversei com os desconhecidos e saltei do ônibus em risco. Os espaços noturnos vazios são uma bem contada mentira, um cenário extenso que disfarça as existências cantantes, até perigosas, sempre ritmadas. Descendo do Largo da Carioca até a Rua do Riachuelo, a boêmia se refaz ou desfaz em bares de samba-funk, bem debaixo dos Arcos da Lapa.



 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

No livro das trinta dúzias de coisas que se espera de um passageiro médio de ônibus - entre não sentar-se molhado aos bancos, não cuspir no piso e não dependurar-se no teto - está escrito com letras compreensíveis, embora rudes, que não se deve levar mais de dez minutos parado à porta de saída decidindo se quer ou não saltar. É que a indecisão apareceu por culpa duma terrível conclusão: só vivem perigosamente os que não lêem jornais.

Foi por isso que eu fiquei parada junto do degrau e o vendedor de refrigerantes veio arrastando o enorme isopor enfaixado de fita crepe; sentou-se nos últimos bancos do ônibus estendendo as pernas pretas, o pé vestido de chinelo. Coçou a cabeça, uma pausa, coçou o joelho e pensei se a indecisão minha lhe atrapalhava a harmonia da pele. Foi um tempo longo. Daí o motorista finalmente olhou pelo retrovisor: "vai saltar aqui?". Pronto, era mais fácil largar-se, submeter-se à falta de opções que nos joga constantemente escada abaixo, lendo ou não jornais. Medo da rua.

A calçada e olhei ao redor no arrependimento de não ter comprado um refrigerante no moço isopor-fita-crepe: meia-noite no Centro da cidade. Ponto de táxi na Avenida [República do] Chile e lembrei que os táxis atropelam.

Aliás, é um dado que passa despercebido à maioria: nunca ande na frente de um táxi carioca em movimento. Eles não param, não podem parar, odeiam parar, pra que existem os semáforos? Os táxis amarelos só não correm nunca e são exemplos de boa conduta ao trânsito se você estiver dentro de um deles. O problema é que não, as pessoas não observam também o livro das trinta dúzias de coisas que se esperam de um pedestre médio: disputamos sítios vitais com os táxis usando os pés, os cotovelos, usando canetas BIC, usando velhinhas como escudo humano. Exige-se passar correndo na frente do carro de praça num otimismo intenso que reza a possibilidade de nem motoristas nem pedestres perderem seu tempo/dinheiro com o uso da simples sura da física que diz: dois corpos podem, e se possível, devem ocupar o mesmo lugar no espaço.

Mas assim de noite eles estavam lá mais amarelos que nunca, descansando próximos ao edifício cubo-mágico da Petrobrás, entre um trago e outro.

Por pensar no preço que me cobrariam para descer três quarteirões, sobreveio o transtorno da avareza, misturou-se com o pavor, com o nunca tomo táxis!. Por isso a alegria, o misto de salto ornamental com nado sincronizado (beleza olímpica), que foi ver andando bem logo adiante um grupo de adolescentes, num frescor suburbano e todo pronto que nos fazem girar os calcanhares autômatos e ignorar avisos neuróticos particulares sobre não falar com pessoas na rua. Vocês vão pra a Lapa? Salvas agora cinco econômicas cervejas.

Eram de Bangú e tinham seus 16 e 19 anos, entre casais abraçados, outros brigando e uns três solteiros aparentemente chateados com toda aquela esfera doméstica e excludente. Agradeci uma infinidade de vezes pela inclusão no grupo, apontei os arcos brancos que eles nunca tinham visto, destemeram as ruas escuras (porque não lêem jornais) e não fizeram comentários sobre o vestido prata. Trabalhavam no telemarketing os rapazes, e insistiam em me chamar "senhora". Perguntaram o que eu fazia ali: nem queiram saber. Quiseram ainda sim. Não lembro.

Descemos a ladeira que contorna a catedral metropolitana, quase em silêncio, quase uma procissão. Pude conversar mais com dois deles, um se chamava Thiago e falei que, quando chove, não é bom andar ali sem botas.

O antigo aqueduto era, e minha mãe se lembra bem disso, um imenso largo onde pousavam dezenas de moradores de rua, nas suas idades todas, porque já não era mais possível se lembrar que, nos anos de 1950, o lugar atendia pela legenda de Montmatre carioca. Mas estava agora revitalizada com os incríveis arcotes brancos, bondes e tudo mais; atmosfera submundesca. Havia samba, salsa, rock, artesanatos, yakissoba, bebidas misturadas com álcool doméstico... mas os adolescentes perderam a animação de todo e umas meninas bebericavam os pescoços dos namorados alongando os pedidos para voltarem para casa. Mas como? Que se deixassem vir as cervejas em latas de 600 ml. Não bebiam, mas fomos parar às portas dum baile funk. Passou o vendedor de tequila pervertida e brindei a psicose. Houveram beijos, me despedi.

Parei em frente ao Sinuca da Lapa, todo reformado, não lembrava em nada o beco enfumaçado, putas, caçapas. Eram cores claras... Mas parei porque as pessoas passavam. Tomei uma daquelas Kombis pra subir Santa Teresa, essas iluminadas com néon por dentro. Do lado, uma perfumada cabrocha, cachos e vestido florido. Tudo invejei nela, a chave de casa no colo.

Mas só duas horas depois, tocando a campainha do prédio e telefonemas, consegui entrar. O álcool distorce o conforto e já me conformava com a idéia de dormir ali nos paralelepípedos ao lado daquele pub alemão; no entanto Pablo Picasso apareceu com os olhos quase fechados, girando a chave e balançando a cabeça negativamente: inacreditável... inacreditável... eu estava dormindo.

Triste mesmo quando a bateria da câmera acaba porque os olhos nunca retêm, perdem a memória. A vista do alto do morro, da varanda do alto do morro, é impossível de ser descrita. Toda cidade vista de longe é uma massa compacta de silêncio incompreensível. Entrei na sala, amava aquele homem, mas não pensei em transar.

priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x2
 
Site Meter