A sua voz começou como um fio


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Sim, claro que estive aqui. Há muitos anos. Aliás... Vi-a na janela, quando ia passando pela rua, mãos nos bolsos, preocupações ausentes. O boné de marinheiro ia enterrado até quase aos olhos contra uma chuva miudinha que a pala obviava. Nessa altura o meu cabelo quase não era branco e as calças muito mais claras. Levantei os olhos porque da janela saía música, algum samba, chorinho ou fado, amores não correspondidos que suplicavam destino diferente. E foi aqui, em Lisboa, que me apaixonei.

Olhou-me com olhos líquidos e os dedos ainda pendurados do arame soltaram-se finalmente, os nó brancos da força. Fomos andando ao longo da água para montante, subindo a corrente de água de um lado, carros do outro. Como se alguém acreditasse que aquilo era um rio e não um mar, uma arrogância de água, quase mais larga que o olhar. Foi ele quem soltou o olhar da hipótese de Tágides e começou a andar. Limitei-me a segui-lo enquanto o trânsito sonolento da madrugada dava lugar à pressa maior da manhã, que zumbia nos nossos ouvidos.

Foi onde me encontrou que a conheci. Exactamente ali, há mais anos do que devia. Eu ia descendo a calçada e ela estava numa janela (abana a cabeça como se sacudisse a memória). Gelosias verdes e uma floreira carregada de cores. De cima pingava roupa pendurada como uma chuva hesitante em começar. E enquadrada, ela. Não, talvez não fosse ela. Era a irmã. Pelo menos a irmã insistiu durante anos que era por ela que me devia ter apaixonado. A sua voz era agora mais certa, mais rio, menos fugidia. Não sei. E abanou a cabeça.

Talvez tenha dito mais coisas de que não me lembro, sobre como é o amor à primeira vista numa rua de Lisboa, porque quando olhei em volta estávamos em pleno porto, rodeados de contentores como peças de lego gigantes. Entre ruas estreitas de metal colorido e empilhado via-se ainda o rio, agora mais claro, com hipótese de sol nascendo numa curva mais acima. O tecto de nuvens parecia desfazer-se e fugir com a noite, com pressa de vento e missão cumprida. Para trás uma colina de casas novas e velhas incomodava-me com aquela incerteza que Lisboa tem. Será verdadeiramente uma cidade que quer que gostemos dela? Ou apenas um amontoado de hipóteses por realizar? Corto falava ainda do passado.

Passei uns meses com ela. Talvez fossem anos ou semanas. Há momentos na vida em que o tempo perde a razão. Mas era uma Tágide, estou certo. Pelo menos inspirou-me. Em todos os momentos. Cheguei a pensar que encontrara um último porto, por fim. Mas não, não há últimos portos. De novo parti. Como chegáramos ali? Agora sob o olhar majestoso de uma grua, o assobiar do vento nas ruas de cimento e metal. Olhou-me de olhos pequenos e percebi que não era para mim que olhava. Alguma coisa junto à água, no cais deserto, chamara a sua atenção.


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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