Aproximei-me a medo



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Não era alta, a figura, mas não me apercebi logo que era uma mulher. Parei três passos depois, piscando os olhos. Seria com toda a certeza uma ilusão de óptica, mas pareceu-me que flutuava sobre o cimento, não mais que alguns centímetros de ar através dos quais conseguia ver o primeiro brilho da manhã rasando o rio cinzento. Mais dois passos e comecei a perceber.

Era uma mulher, parada no cais, de frente para o rio. A seu lado, uma mala pousada, como se lhe tivesse caído dos braços, escorridos ao longo do corpo. Junto da mala parara Corto e conversava com ela. Dos dedos para a mala, escorriam ainda gotas de chuva, a mesma que lhe encharcara o cabelo escuro e colado às costas de um velho sobretudo verde. Por baixo do sobretudo, um vestido comprido de lantejoulas num tom cinzento azulado que se confundia com a água e que eu tomara por rio. Por isso parecia flutuar.

Ao chegar-me mais um pouco percebi que o vestido roçara no chão molhado e a toda a volta estava decorado por uma bainha molhada de sujidade. A sujidade do cais. Seguro um instinto de me ajoelhar, de lhe encostar a face, de provar esses restos de terra e ar, da chuva que cai dos passos que passaram. Talvez assim, colado à terra, a sentisse girar, com ela a cidade e todos nós que a habitamos. Quem seria aquela mulher que logo me inspirava a beijar o chão que pisara?

Se vos tivesse contado um pouco mais da minha história, dos meus amores e desamores, talvez me tivessem chamado de imediato a atenção para a sua figura, o seu cabelo negro e comprido, o peito roliço, a estatura mediana. Sim, talvez tivesse sido desde logo evidente que aquela desconhecida me lembrava Clara, que numa multidão no Chiado, se a visse passar, talvez a seguisse para confirmar se era. Tocava-lhe no ombro, virava-se surpreendida, via a desilusão no meu rosto e logo o pedido de desculpas.

Mas não. Parei a uma distância segura para não parecer intrometido. As vozes soavam-me ainda indistintas. Corto, sem desviar o olhar da sua interlocutora, acenou-me primeiro que me aproximasse, depois que mantivesse ainda uma reserva de boa educação. A mesma sensação de uns passos antes invadia-me com mais tenacidade, uma vontade infantil de me apaixonar sem redenção por uma desconhecida. Nesse momento, Corto dirigiu-me a palavra.



luis soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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