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George Orwell - 1984

O Centro Entrelaçado



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Decidi pegar o ônibus desta vez no assim seja. Sem confirmar a direção com o motorista, e entrei no instante confortável que antecede o perder-se. A ligeira idéia. Lojas e restaurantes de todos os dias amontoados no primeiro e segundo andar das casas. Farmácias, padarias e portinhas de não sei o quê. Uma ou outra residência entre prédios espelhados de empresas e negócios. Na avenida, a perspectiva.

Eu tinha essa encomenda de longe a perder de vista e a tarde semibreve. Por sorte que não foi preciso fazer sinal para o motorista, pois alguém já havia solicitado a parada. Do alívio menos uma preocupação. Desci na rua 34 com o frio crespo ventando no rosto e o calor do movimento das pessoas nas calçadas, atravessando as ruas e avenidas com rapidez e urgência. Numa espécie de atropelamento constante. A tessitura de um não viver. A gente devia poder refrear-se, fazer desvios, e trazer no passo a querença de um sossego de espírito.

Segui rumo. Cruzei a Broadway até a Quinta e subi linear. O papel que me entregaram, além de algumas imagens e o dinheiro dobrado, dizia que deveria ser entre as ruas 36 e 37. Assim, só. E uma trama toda nova, visual, para desvendar. Lojas de tecido, armarinho e aviamento. Um vendaval de miudezas e aprestos na cidade de todas as coisas. Então notei que a medida em que escurecia do lado de fora, do lado de dentro uma profusão de cores e brilhos fazia da vista miúda e cansada um sol duradouro. Excessos. Homens guardavam a entrada da maior parte dos estabelecimentos, ao passo que vendedores vigilantes cuidavam da mercadoria e de manequins seminus entre sacolas pretas e vestidos para festas de última hora.

As ruas pouco iluminadas e estreitas seguravam o tráfego intenso daquele horário e eu deslizava silenciosamente entre os carros hesitantes. Aproveitei para olhar para cima incongruente. A vista um ziguezague de apartamentos e prédios e uma cascata de luzes que nascia no limiar da noite. Eu estava perdida e cansada e ninguém sabia da bússola interna. Na pergunta, o olhar abundante e ao mesmo tempo incerto das pessoas. Então é assim quando a gente deixa as vias principais e anda e anda a espreita das vielas. Pequenas travessias e uma cidade feita de muitas outras, maior. Diversa.

No resvalio da situação costurei quarteirões sem perceber que a única loja que vendia a encomenda havia fechado cedo por conta de algum querer. O lugar para não ser visto. Desejei morar por perto para apenas subir, tomar banho e comer - o de todo santo dia, sempre. Pois que da mesmice, a miríade. Escondida e espremida entre lojas de tecido de linho, algodão, seda, e muito mais, havia uma peculiar casa de botões - do princípio arredondado e achatado, mas mesmo, de todos os tipos, formas, tamanhos e cores para ornar o vestuário e a imaginação. A fim de contemplar. Escutei o dono do local falar do manifesto da cidade. Conjurações. Dos botões das peças da Broadway, raridades e gentilezas. E porque eu já havia desviado caminhos comprei alguns para mim. Pequenas inscrições urbanas.

isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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