Cloverfield e a estética do Séc. XXI


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No século passado, mesmo no fim, um filme chamado “The Blair Witch Project” trazia aos ecrãs de forma definitiva e paradigmática a estética do camcorder, simulando uma excursão de estudantes de câmara em punho em busca da mítica bruxa de Blair. Era uma ideia original, com um custo de produção baixíssimo e que gerou milhões de dólares no box office, tornando-se um negócio altamente rentável para uma indústria que batia recordes de receitas todos os anos.

Desde então, muita coisa aconteceu, a Internet tornou-se 2.0 e o YouTube um fenómeno de massas. A cultura do camcorder foi substituída pela da universal disponibilidade dos meios de produção digital. “The Blair Witch Project”, de boa ideia tornou-se numa possibilidade disponível na mão de todos e de cada um. A indústria audiovisual entretanto, tenta evitar a catástrofe que assolou a indústria musical, movendo-se por antecipação.

Colocado o filme em contexto, vale a pena dizer que apesar da eventual semelhança (uma personagem de camcorder na mão é o ponto de vista dos acontecimentos), estamos já longe da estética amadora de Blair Witch e no domínio claro do Blockbuster. Já todos nos habituámos à câmara à mão. Já todos nos habituámos que toda a gente pode fazer filmes de tudo, sem preparação e sem formação. Basta pegar na câmara e ter olhos. O que “Cloverfield” representa é a apropriação por parte da indústria dessa nova estética, pela mão de um dos seus mais hábeis produtores.

O filme está pejado de efeitos especiais com certeza caríssimos de produzir, um monstro do tamanho dos arranha-céus, destruição inimaginável, figurantes a perder de vista e, nesse sentido, segue o caminho de todos os grandes filmes catástrofe desde os anos 70. Mas ao meter tudo isto no “viewfinder” de uma câmara pessoal, altera as regras do jogo o suficiente para se tornar inteligente.

Bill Viola diz num dos seus caderno de apontamentos que gosta de usar o vídeo como “mente”, pensar o vídeo como duração. E é aqui que está a inteligência deste filme, na maneira como usa o contínuo/descontínuo da fita de vídeo para construir e destruir a tensão dramática. Até mesmo para inserir flashbacks.

É claro que no fim, estamos perante um produto industrial. Como o monstro no ecrã, Hollywood devorou a estética YouTube e cuspiu-a. Entretenimento garantido, mas... o que vem a seguir?


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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