Espaços Subjetivos - Subway


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Desenhei num pedaço de papel a rosa-dos-ventos. Eu queria tomar rumo, seguir com o principiar. Essas cismas que a gente tem de que a pequena vida escoa e finda com o entardecer. Tirei o mapa da bolsa e colei o pedaço de papel bem no centro. Esperei o trem chegar. Não dá para ver a minha casa da plataforma, mas eu imagino o silêncio e os objetos que ficaram em repouso. Um casal do meu lado abre o mapa: veias para todos os lados criam ora uma teia de possibilidades e descobertas, ora um emaranhado de dificuldades e caminhos obscuros onde eu temo me perder. A rota divide-se entre números e letras. A linha tem no seu significante nomes próprios e números por extenso. E a trajetória é uma experiência única que se constrói na medida em que caminhamos e decidimos nossas ações cotidianas.

Em Astoria, a rota N/W desliza na altura do horizonte sobre uma estrutura elevada de aço e ferro. E porque ela se eleva dá para ver a cidade correr bem na frente dos olhos. Dá para observar o movimento dos carros e das pessoas. Feixes de luz. A agitação das árvores nos parques e o deslocamento dos pássaros que acrescentam vida à paisagem, acolhedora ou inóspita. No espaço vazio, interrompido, vislumbro os grafites que assinam em pequenos prédios e casas de dois ou três andares, as famosas townhouses. Na moldura das janelas cortinas improvisadas de bandeiras são expostas como se fossem braços que tentam alcançar o outro lado da margem. Aquela que ficou para trás.

Às vezes, Mr. Smile, um negro alto e cândido, aparece no vagão e eu noto que sou a única a sorrir sutilezas. Observo o olhar cansado e ensimesmado dos outros passageiros escondido por detrás dos livros e jornais. Alguém no fundo estende uma nota de um dólar ao mesmo tempo em que eu procuro por redenção na bolsa preta surrada. Seguro o porta-moedas e deixo o momento esvaecer entre aqueles segundos de luz no vácuo.

Os letreiros e as propagandas, dentro e fora do trem, anunciam diversidades à nossa sociedade atual. A plástica facial que o médico divulga com ar de santidade e o restaurante tcheco da esquina. O diploma profissionalizante e a placa desbotada dentro do pátio da escola que diz drug-free school zone. A nova série da Fox e o salão de beleza com a sua tipografia dourada. Poesia concreta em movimento e a face enigmática e sombria do terrorismo no olhar de cada um de nós - if you see something, say something.

Não é raro sentir que estou em casa, completamente adaptada, como se a minha mente nunca tivesse partido de lugar algum. Em momentos como esse o solavanco causado pela freada brusca do trem me recolhe do transe e eu volto a me concentrar nos detalhes relevantes do passeio. Há grafite padronizado na escuridão de muitas das estações subterrâneas da cidade e eu gosto de fantasiar a respeito. Ratos andam a passos lentos em busca de restos de comida entre os trilhos e túneis. Para eles, a vida continua com ou sem metrô. Pessoas entram e saem a todo instante e a essa altura o casal que chegou comigo na plataforma já desceu. Perdeu-se entre a fotografia, o mosaico, as instalações e os músicos espalhados ao longo das centenas de estações e em comunhão com a paisagem poluída, suja e caótica do entorno. De todos os lugares que eu vejo, mas que eu não consigo compreender com o andar. De todos e sobretudo os percursos por onde milhares de rostos de todas as idades e etnias percorrem, arredores são ligados por traços contínuos e conexões que se assemelham a uma grande constelação com suas linhas imaginárias. Enquanto o tempo se desenrola irreversível: vinte e quatro horas por dia, ano após ano.

No caminho de todas as voltas ficamos presos dentro de uma estação de metrô abandonada, que já não presta mais serviço à comunidade. A espera operou sensações ausentes de palavras. A história e o seu cheiro forte de poeira, escavações, explosivos e mortes. E enquanto eu sentava em um dos vagões antigos e tentava imaginar o cenário da época e as transformações pelas quais a cidade havia passado, a vida do lado de fora avançava veloz, sem paradas. A via expressa.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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