Há um rio que passa em Fava


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Há um rio que passa em Fava. Chama-se Maritsa. Não consigo deixar de pensar que é um nome de rapariga - de menina, mais exactamente. Maritsa podia ser a rapariga que, quando éramos crianças, chamávamos do portão - e ela aparecia à porta de casa, depois virava-se para dentro alguns segundos (não ouvíamos, mas sabíamos o que dizia) e, já com a aprovação da mãe, saía a correr para brincar connosco. Maritsa não podia nunca passar uma certa idade - o fim da infância, digamos -; portanto, e para não terminarmos a sua história numa tragédia precoce, fica por aqui a comparação. Maritsa é o nome que os búlgaros lhe dão. Os gregos chamam-lhe Evros. Evros e Maritsa. Os turcos dão-lhe um nome semelhante ao búlgaro - Meriç.

Maritsa, o rio, nasce na Bulgária, nas montanhas Ródopos, e atravessa o sul do país até correr ao longo da fronteira com a Grécia, primeiro, e depois com a Turquia, terminando, imagino que em beleza, num delta no mar Egeu. É um rio estreito e atarefado nas montanhas, mas que abranda o passo e respira fundo quando chega à planície, onde se cruza com Fava.

Falo do rio porque sempre senti que uma cidade com água - um rio, um lago, o mar - é outra coisa. Qualquer cidade pequena é ampliada pela simples passagem de um rio, pelas margens mais ou menos domesticadas, pela caixa de ressonância da água. Um rio é uma herança, como uma jóia de família ou um antepassado célebre. É injusto para as outras cidades, que não podem mudar a sua sorte, mas é mesmo assim.

Para além de um rio, Fava tem: ruas desenhadas à mão por entre as árvores (tílias, cerejeiras, ameixoeiras, castanheiros); um anfiteatro romano; um centro histórico em forma de crescente, cujo lado menor dá para o rio; uma rua pedonal cheia de lojas e esplanadas; ruas e avenidas modestas de prédios com lojas, cafés e oficinas, construídos nas últimas décadas; o melhor ponto de observação de Edirne, do outro lado do rio (Edirne, a grande cidade de minaretes caligráficos a desenhar um perfil que conhecemos dos postais e que nos lembra que estamos, aqui, a pousar um pé cauteloso no Oriente). A língua é estranha; as pessoas têm caras de vários feitios, sorrisos e tons de pele, embora, após as últimas guerras entre turcos, búlgaros e gregos, depois de acertadas as fronteiras e de a Trácia ter sido repartida como uma carcaça, as populações se tenham deslocado de forma a reduzir misturas: búlgaros ortodoxos e muçulmanos para a Bulgária; turcos para a Turquia; gregos para a Grécia. Ciganos, por toda a parte. Desde sempre, foi região de passagem dos invasores que fluíam e refluíam da Europa para a Ásia Menor e desta para aquela, com Istambul pelo caminho - gregos, macedónios, romanos, bizantinos, cristãos do ocidente, e várias nações modernas nas suas armas pujantes, construindo e destruindo e assentando camadas hoje enterradas por baixo de mercados de fruta e flores, de homens que gritam, de mulheres com crianças a caminho da escola, de automóveis, de notícias e inquietações do dia. Fava esteve sempre do outro lado do rio, discreta e persistente, vendo as lutas em Edirne. Ainda lá está.

Que o frio do Inverno não nos engane: em Fava estamos no sul - esse sul magnético para onde aponta sempre a fantasia dos europeus do Norte, feito de sol, de água salgada, de vinho, de pessoas que se tocam. Os homens beijam-se, em Fava, e abraçam-se. A cidade não fica à beira-mar, mas a estrada que leva até ao mar de Marmara e até ao mar Egeu faz-se em menos de uma hora. Estamos também, para alguém da ponta ocidental da Europa, na periferia de qualquer coisa. Ainda que a região tenha sido o epicentro de tanta história, muito antes de romanos e Viriatos, para nós, pendurados do outro lado, é o limite do mundo conhecido. Damos aqui, em Fava, com Maritsa, o primeiro passo para fora do nosso quintal.

Cheguei a Fava sem querer. Tinha ido a Edirne fazer uma visita turística; ao fim do dia, tentei em vão reservar um hotel. O festival de Kirkpinar tinha terminado no dia anterior, e os hotéis estavam cheios. Enquanto bebia um chá e decidia se voltava ainda nesse dia para Istambul, sem grande vontade de apanhar um comboio nocturno, reparei que havia uma cidade (seria ainda Edirne?) do outro lado do rio. Perguntei ao empregado do café como podia ir até lá, e se sabia de alguns hotéis. Ele fez um vigoroso assentimento com a cabeça e voltou segundos depois com um número de telefone. "Cousin. Good.", disse. Ah, eu sempre a cair nos mesmos erros... "Cousin" era uma palavra perigosa, naquele contexto, e o "good" não me tranquilizava. Podia, pela minha experiência, ser um quarto bafiento no sótão da casa de família. Mas guardei o papel, agradeci com um sorriso confiante e, seguindo as indicações do homem, fui procurar o cais de onde saíam os barcos e os autocarros para Fava.

Escolhi ir de barco, embora ainda demorasse meia hora. Queria saber como eram as águas do Maritsa - pareciam pesadas e lentas, mas também o Tejo, por vezes, tem essa qualidade de animal antigo a dormir a sesta, e, no entanto, ao entrarmos no cacilheiro, as pranchas de acesso sobem e descem perigosamente ao ritmo da ondulação, que até ali não existia. Fiquei a saborear o nome - Fava. Esse nome de comida antiga e respeitável. Vou a casa de um primo que mora em Fava, pensei, e tive vontade de rir.


deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cidades// @obvious, @obvioushp //chloe