Fios, trilhos e morros

Fez um sol forte naquele dia, desses que batem nas pedras quadradas do chão, nos trilhos, no muro das casas e, finalmente, refletem um céu absurdamente azul irreal. As pessoas e as crianças descem até as padarias mais próximas pra comprar pão e a calma na lentidão dum domingo carioca. O bonde, a moça, está calor, um italiano sai do castelo; assim o real se liquida na cidade que inventei.



 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

A verdade é que a cidade não existe. É bom que não exista, numa mente perversa talvez, que faz surgir montes de ruas, esquinas, vendedores e até praças onde ficam habitados pessoas que igualmente não existem. Criei a cidade chamada São Sebastião do Rio de Janeiro para fazer morar e andar por ela as personagens estranhas a mim, é assim que as conheço. Isso elas vivem e me falam desse lugar de dias ásperos onde sopra uma constante brisa tão agradável.

Fora da vista da janela, eu prendia os cabelos com grampos velhos enquanto conferia o nome dos livros sentados ao redor do espelho, no vestíbulo, não se via o quarto mas ele dizia grave: ela não pode saber disso, pelo amor de Deus.

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Ignoro quaisquer incômodos passionais; além do mais, desnecessário muito sentir para olhar os fios do bonde. É um truque: quando o bonde está subindo ou descendo, mesmo há vários metros de distância dá pra saber se ele vem chegando pelo tremelicar dos fios. E daí esperei, e daí fazia aquele sol absurdo e lá em baixo uma cidade inteira que não existe, e aqui em cima um castelo, um antigo palacete onde agora são alugados quartos a preços nada módicos. Saiu um rapaz de lá, não é daqui. Me deixa chutar: italiano. Desceu esbaforido às escadas e fechou o portão atrás de si, mas Nossa Senhora da Conceição permaneceu parada no altar da entrada, com as flores ao redor. Ele olhou prum lado e pro outro e meteu um chapéu na cabeça, desses chapéus que gritam: Olá! Sou um estrangeiro. Desceu. Uma senhora jovem, vinha arrastando a filha de seis anos pela mão e um moço subiu de bicicleta com o pão embrulhado em papel cor cinza-pedacinhos-de-outros-papéis-cinzas embaixo do braço. Sem camisa e muito bom equilíbrio. Eu queria levar o sol pra casa, mas, como eu nem tinha mais uma, tomava o ônibus; outro.

Acidentalmente o lugar onde as ruas não existem e por onde o carro vai descendo ladeira e pedras abaixo, favela: Morro dos Prazeres, casa do Sérgio Britto, cinema, hospital: hospício, convento das auspicias freiras carmelitas, boteco: jazz... e a coisa que me afasta de tudo é estar deitada naquele chão, derretendo, entrando no vão entre as pedras, dissipada ou lembrando ela que andava, não ali, mas num lugar parecido com esse, onde as casas eram igualmente antigas mas não tão boas de se ver. Feito chuva, feito morna é fácil escorrer aos outros lugares mais lá embaixo e estar rápido, muito rápido, na Central do Brasil, na Avenida Presidente Vargas (onde a Mangueira passou).

Hoje não, que é domingo, mas amanhã e ontem, ela, a personagem, esteve aqui e passou entre os camelôs amontoados entre os terminais de ônibus. Caos e se pode até comprar um Ipod, um tênis, um desentupidor de pias, mas ela procurava filtro solar (tinha visto na TV que devia usar o fator 30) e o encontrou em frente a um bar que vendia pão com lingüiça, ao lado de um salão de beleza cuja porta de entrada media meio metro e imediatamente ao lado de onde estavam penduradas dezenas de sandálias nordestinas. Olha pra cima, não, não pra ver o fio do bonde, mas olha por costume a placa ST. CRISTO, PERIMETRAL. À frente. E à frente também o túnel, em cima do túnel as casas, a terra e as pessoas subindo duas escadarias seguindo a vida.

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Ali perto (não há como ver, mas é perto), vivia Macabéa da Lispector, agora vivia Tereza. E ela atravessou o túnel à pé (corajosa, a penso) dando de cara aos passos com a Zona Portuária. Por preguiça, pegou o ônibus que eu via parado no semáforo e se foi. Passou pela praça velha e uns velhos estavam sentados nos banquinhos, falando, em frente à igreja católica d´onde se pode ver o templo da Igreja Batista. Praça duma calma tão estranha, Tereza. Ela seguia e o asfalto era um tanto desabado demais em Santo Cristo. As casas são híbridas, são metade de fachada clássica (1867) e, de si pra cima, tijolos à mostra. Para baixo ela havia morado certa vez e sentia saudades de quando o trânsito ficava confuso; os ônibus coloridíssimos cortavam caminho por ali; as pessoas pegam cadeiras de praia, põem na calçada e aproveitam o final da tarde com cerveja e janelas nos rostos desconhecidos.

Nada disso existe, não preciso jurar para se comprovar que tudo inventei, eu criei, investi com forças e vi que era bom. Tereza aprontou a sala não sei porque. Eu saltei em frente ao Campo de Santana, vi a hora no relógio da Central, comprei uma Antártica e uma batata frita de saquinho.

priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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