
Acordei na repetição de janelas com cortinas ausentes. Ruas largas, prédios aprumados de pedra e tijolo escuros, acastanhados. Espaço, muito espaço urbanizado, não necessariamente em altura; e, outra vez, árvores, cada vez mais, mais do que a aproximação à cidade me permitira esperar. Muitas e cada uma. Direitas ao longo dos passeios, gigantes silenciosas a aparecer nas traseiras dos prédios, em aglomerados porque jardins ou, muito, em aglomerados porque sim. Hammershøi tem árvores como a terra: porque sim.
Então a noite chegou, devorou o mundo e Hammershoi foi o espaço escuro, a iluminação artificial a escassear enquanto passávamos do centro para o labirinto curvo de vias rápidas, iguais em qualquer lugar, a neve franzina que recomeçou no momento em que o táxi me deixou à porta do hotel, edifício de dez andares, com base de largura quase equivalente, albergando um centro de congressos. A contrastar com a noite e com a rua, o interior do hotel era feito de luz branca total, luz de frigorífico, sem altos e baixos ou sombras onde apetecesse estar, ficar. O ar entre as paredes, mais que limpo, cheirava a pó desinfectante, um ar com notas de fundo quase imperceptíveis de mofo e odores humanos disfarçados, controlados, odores ocidentalizados, anulados para uma qualquer ilusão generalizada, desejada, de conforto sem raízes ou entranhas.
Feito o check-in, entrei no elevador, uma montra de vidro de tal forma transparente que, àquela hora, um louco descompensado que tivesse acordado furioso poderia, sem especial vocação para sniper, limpar o sebo a qualquer pessoa que subisse ou descesse. Um minuto depois, a porta abriu-se para um pequeno átrio onde um homem magro, com bigodinho revirado à retrato antigo, envergando fato xadrez castanho e verde e uma boina de feltro cor de mel, engraxava os sapatos num dispositivo próprio instalado numa das paredes. Sorriu-me e disse-me boa noite num inglês melífluo com vogais abertas. O átrio afunilava num corredor comprido e uniformemente pouco iluminado, no qual o meu quarto veio a ser o último à direita.
Sou sempre um embuste em lugares assim. Aquela que não se adaptou plenamente às obrigações da idade adulta e nunca consegue roupa suficientemente formal para não destoar, que só deseja ser invisível, mas que as pessoas de sucesso, as que aprenderam a vestir-se para todas as ocasiões, sempre topam e olham com a complacência dos tios por afinidade – o que mesmo assim implica um mínimo carinho residual, ainda que abstracto –, como que abanando a cabeça e perguntando, nas muitas línguas subentendidas que o mundo gerou, “Não tinhas um fatinho de saia e casaco? Uma gabardina creme ou cinzenta? Uma malinha igual à pasta, aos sapatos – de salto, claro –, ao cinto e à mala de viagem, com rodinhas a condizer? Não podias ter esticado o cabelo?”.
Foi pois com grande alívio que abri a porta do quarto, tirei os sapatos, vesti uma t-shirt e recolhi ao meu temporário refúgio. Este quarto de Hammershøi reservava-me, porém, inesperado e redentor prazer: a um canto da divisão, correspondente a uma área de estar, com sofás, televisão e mesa com as revistas da praxe, descobri não o Santo Livro mas, melhor, uma mini hi-fi e, ao lado, vários discos, um deles contendo a 5ª Sinfonia de Beethoven, que conheço desde criança, e que, posta a tocar, depressa fez o que sabia de mais poderoso: trazer ali, invisível, a casa da minha infância para eu habitar. Assim mergulhada na música, aproximei-me da janela. Uma janela cega de vidro duplo, perfeitamente calafetada, sem possibilidade de vento; lá fora o negro demasiado denso para ser vazio ou mera falha de luz eléctrica. Vi as horas, voltei a vestir-me, e quase voei até ao elevador, não tão depressa que não pudesse reparar que o homem de boina mel e bigodinho estava – ainda ou outra vez – a engraxar os sapatos. Na recepção, perguntei pelo restaurante mais próximo, “estamos no meio do nada, são três grandes quarteirões”, era mesmo isso, “está bem, é seguro, desenho-lhe orientações neste mapa”.
Lá fora, o vento trouxe da escuridão os sons de Hammershøi, a floresta que condescendia em ser cidade, e eu caminhei no nada até ao restaurante.
7 comentários
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Chloe
Gosto muito dessa ideia de coisas que nos trazem a casa da nossa infância para habitarmos. Dava um belo poema.
Há um livro do Ishiguro (o dos Despojos do Dia) chamado Os Inconsolados em que o protagonista vai dormir a um hotel numa cidade e quando acorda olha para o tapete do quarto e vê que era o tapete do quarto dele em pequeno. O livro é todo ele um sonho estranho no espaço e no tempo.
Todas as cidades deviam ter árvores porque sim.
isabella
Este texto me transportou para Hammershoi de forma sutil e serena... Muito bom!
=)
sao
Chloe: há coisas que o conseguem. Na casa dos meus avós há uma maçaneta desaparecida de uma porta que já não existe, e descobri que conseguia, sem grande esforço - é estranha essa facilidade -, senti-la na mão, forma, textura, temperatura, tamanho.
Isabella: obrigada :)
É a persistência da memória. Houve até um gajo que pintou um quadro sobre isso mas a Chloe não gosta dele...
sao
Cheira-me a coisa do Dali.
sao
Deve ser aquele que tem relógios em modo ovo estrelado a escorrer do - em Português moderno directamente mal traduzido do Inglês - contador de cozinha.
Fui ver: é!
Também não curto. Mas admito que isso possa dever-se à falta de trabalho meu na descoberta do que a comunicação social não cristalizou como sendo Dali.
Lembro-me bem da agradável surpresa que foi para mim a descoberta de Picasso, quer no museu de Barcelona, quer em livros que com minúcia se libertam dos lugares-comuns e divulgam a sua obra... as variações sobre As Meninas do Velásquez, por exemplo, são geniais.
Apesar de não ser propriamente um fã do Dali, reconheço que essa é uma das imagens fortes e originais de toda a pintura moderna, um autêntico ícone.
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