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George Orwell - 1984

Hammershøi - Chegada



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Conheci Hammershøi num Domingo, dois dias antes da data em que a Primavera principia nos calendários, chegada num comboio que apanhei no piso -1 do aeroporto quarenta minutos antes. Era uma tarde cinzenta, que a chuva miúda e constante, ao invés de escurecer, aclarava. A luz viera a crescer desde Dezembro, alargando os limites do dia, o que me permitiu ver os campos em volta antes de ter qualquer percepção da cidade. Convém notar, talvez, que estava apaixonada, o que me indispunha contra aquela viagem e me fazia antecipar em Hammershøi uma cidade feia e triste, uma cidade sombria que nada podia contra Lisboa, azul e esplendorosa, onde o meu amor tinha ficado.

O comboio seguia na margem do rio, onde se alinhavam árvores que a velocidade da deslocação fazia parecerem uma mancha à entrada e à saída do campo de visão, e que a meio recuperavam, por segundos e por favor, formas e cores. A paisagem era monótona, lisa e sem sobressaltos, como num bizarro Alentejo que por engano tivesse nascido distante do Sul, com as cores trocadas, naturalmente arborizado pela água abundante. Longe, muito longe, visível na largueza da terra: o mar. Pelo meio, ovelhas e vacas, em poses de rótulo de embalagem de manteiga, pastavam em prados ordenados, prados de um verde que o cinzento do dia intensificava. Quando a noite tivesse quase tomado por completo os espaços, aquele verde seria ainda visível, fluorescente, espectro não sei de que luz.

Quando foi? Foi devagarinho, foi no embalo do comboio. Se calhar foi uma desculpa para não retomar a leitura interrompida no colo. Ou então foi porque o céu deixava ver o sol até ao fim, até ao mar. Deixei-me ficar a olhar pela janela e, passado algum tempo, uma a uma, as coisas da paisagem começaram a individualizar-se. Nas fileiras de árvores apareceu um choupo e depois outro. Mais à frente distingui uma tília. A água do rio, antes quieta, tinha agora nuvens e pássaros. Não sei dizer se foi na barriga ou na garganta que a evidência da terra se fez sentir. Ou no ar em redor do corpo, no ar da pele e da transpiração, perto do sangue. Destoou das expectativas cinzentas do dia, fugaz, quase impossível – velho e novo, aquele era o mundo, eu não era, não podia ser estrangeira ou estar longe; e gostava.

O comboio deixou-me na estação central de Hammershøi, e terminal, perto das sete da tarde. Quase não se via ninguém no edifício baixo e rectangular, de pedra cinzenta, completamente aberto dos lados. O frio húmido e o vento fizeram-me regressar à desolação. Estava outra vez só longe de Lisboa. A saída principal ficava escassos metros à frente do fim da linha onde desci, mas não a vi. Procurei no chão sinais de outros fumadores e quando confirmei generalizadas as beatas acendi um cigarro. Subi ao primeiro andar da estação e, encontrada a indicação da paragem dos táxis, desci, saí e contornei o edifício. Havia restos de neve derretida no chão, misturada com terra e com sujidade. Mantendo atinado o andar, consegui chegar a um táxi sem cair. Arrumada a mala na bagageira, sentei-me e pronunciei casualmente o nome do meu hotel, como se regressasse pela vigésima vez. O motorista sorriu e fingiu que acreditou. Arrancámos. Reanimada no calor do carro, a primeira coisa que senti foi sono. Mal dei conta quando Hammershøi, toda silêncio e lusco-fusco, começou.

São Reino

é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas.
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