Hammershøi e Temperii


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Hammershøi começou em 1226, quando Guilherme Temperii, Conde de Terpovra, escolheu uma densa floresta, situada no litoral poente das terras da sua família, para construir o castelo onde pretendia viver com Tomásia Hammershøi, sua prometida. Cerca de seis anos depois, no dia da boda e da inauguração da pequena fortificação, duas grandes ondas desabaram sobre aquela área, arrastando noivos, família e convidados para o fundo do mar, enquanto a novíssima construção se afundava no solo entretanto inconsistente. Salvou-se uma torre, a mais alta, ainda hoje visível no mar próximo, que corresponderia no projecto aos aposentos de banhos do casal e cujo interior havia sido por completo revestido com lápis-lazúli.

À tragédia de Guilherme, homem generoso e de bom trato com os camponeses, foram estes sensíveis e depressa prestaram e instituíram culto à torre remanescente do castelo, espalhando-se a crença de que no retorno se garantiam a paz, a abundância das pescas, a fertilidade dos campos, a saúde e longevidade na primeira infância, a dignidade na velhice, como se o senhor, além morte, continuasse a olhar pelos seus.

Seja por esta razão ou por outras, o pequeno aglomerado de camponeses não só subsistiu sem senhor que substituísse Guilherme, como se organizou e viveu livre de conflitos internos e externos por toda a restante a Idade Média, a agricultura e a pesca prosperaram e a povoação cresceu, consolidando-se, tendo mesmo durante a peste negra perdido para a maleita apenas um vigésimo dos nativos, um número ímpar em comparação com o da média europeia. Para este último facto, uma possível explicação será a crença da torre. Outros povos rezaram, ofereceram flores ou deram em sacrifício animais; os habitantes de Hammershøi prestaram culto e pediram graças a uma torre de banhos da forma mais simples que lhes ocorreu – banhando-se.

Tomásia não foi, como se adivinha, esquecida. Tendo sido as gerações dos Temperii anteriores a Guilherme cruéis e severas, quando não indiferentes, os camponeses atribuíram à influência benéfica de Tomásia a bonança vivida nos escassos anos de poder de Guilherme. Era esta apreciadora das árvores e curiosa entusiasta de Botânica, o que terá ditado a Guilherme a escolha do local da construção do castelo. A cidade tomou o sobrenome de Tomásia e, em sua homenagem, a gestão do espaço público fez-se com o travão de exigentes políticas de protecção da floresta, a princípio numa extensão do culto da torre, mais tarde por hábito e tradição e, por fim, quando o tempo chegou, com orgulho de pioneiro.

Na primeira noite que passei na cidade, quando identifiquei o restaurante para onde me dirigia e percebi que chegara, reparei também que, um pouco mais à frente – fora da rota de segurança do mapa –, uma única árvore se erguia num largo de iluminação fraca e cuidada, rodeada de bancos de pedra. Erguia-se e arrastava-se. Era um velho carvalho, com largos ramos retorcidos em todas as direcções, os mais baixos tão rentes ao chão que através deles seria possível – e é, mas também é proibido – trepar em segurança por todos os outros. Apresentava naquela altura nódulos gordos e, à sua vista, tomei nota para regressar de dia e, também, numa outra viagem que ocorresse em Primavera avançada. Disseram-me mais tarde no hotel que o Carvalho de Lung - assim se chama - tem uma idade estimada de quase 900 anos, o que o torna contemporâneo da fundação da cidade e lhe conferiu, a par do estatuto de monumento florestal, o de símbolo da comunidade de Hammershøi enquanto tal. Mas só quando regressei sob luz solar, no dia seguinte, é que reparei na lápis-lazúli de que se revestiam os bancos circundantes; as perguntas que fiz a seguir levaram-me à fundação da cidade.


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