Hammershøi – Gemma


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As empatias imediatas, sem fundamento aparente, acontecem com os lugares como com as pessoas e fazem pensar nos lugares como nas pessoas. Há jardins de que sinto falta como de amigos, ruas que chamam na distância e no tempo, quadros que, nos reencontros, olharia dez horas seguidas, de saudades, no júbilo do presente, na antecipação da lonjura.

Em Hammershøi há uma praça de que gostei ao primeiro impacto e que visito sempre que chego e sempre que estou de partida, como se uma porta invisível da cidade ali se encontrasse, ainda que eu saiba que chegar e partir não possuem arestas rigorosas. Há antes, parece-me, um saco de plástico transparente e, lá dentro, eu - um peixe que, mais ou menos devagar, se adapta à temperatura da água.

Chegar e partir são do corpo. Uma dorzinha nas pontas dos dedos, um frio nos braços como uma corrente de ar à altura da epiderme, olhos que tremem na expectativa de cores, sombras e formas conhecidas que esperam encontrar, ou que se fecham na tentativa de reter o que há das imagens antes de serem sugadas pela memória. O que há do amarelo e do cor-de-laranja nas paredes de um monumento, e do branco baço da pedra, o momento único em que os olhos, antes de saberem das cores, são só o prazer nervoso da variedade da luz.

Gemma, assim se chama essa praça, surge encaixada entre as traseiras de uma catedral e de um convento, a Este e Oeste, a escadaria de um terraço e as arcadas de uma loja, a Norte e a Sul. É aberta nos quatro cantos para ruas estreitas. As pessoas passam por ela, detendo-se com pouca frequência. Não tem outro trânsito. Não tem terra, plantas ou árvores. Não tem fontes nem estátuas. O rectângulo central, no qual se consome a praça, é chão coberto por lajes de granito (e o inseparável musgo), pedra comum a todos os edifícios que aí se encontram. Não há cores ou formas extraordinárias. Lembro-me do impacto poderoso ao virar da esquina, na primeira vez em que lá estive, de ter ficado quieta a tentar descobrir por que razão me sentia emocionada.

Na separação, senti falta da nudez limpa da pedra, do eco que se apodera dos sons, da presença improvável de todos os tempos, do grande silêncio no qual, estranhamente, a cidade comunica. Por esta última e incompreensível razão, é a Gemma que vou dizer que cheguei e que me vou embora. Enquanto as estadias duram, vou às vezes sentar-me na escadaria do terraço a sentir-me feliz.


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