Levei Corto a ver as Tágides


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Lisboa Romance Em que o narrador encontra um idoso perdido na noite de Lisboa e logo o toma por um marinheiro famoso.

Matraqueava-nos um aguaceiro sem ritmo, de gotas grandes e frias junto ao defunto cais das colunas. Pelas nossas costas passavam carros como barcos enquanto eu espreitava por cima do ombro para ver quando saltaria o duche de água suja da sarjeta. Que fazíamos ali? Como chegáramos? A chuva persistente bastou para nos encharcar, escorriam-me riachos do cabelo para o pescoço, costas a dentro. Eu ia perguntando se ele não tinha frio, se não estava farto, mas o velho passava a língua lúbrica pelos lábios (mais para os aquecer, molhados já eles estavam) e acenava que não, que as queria ver, dedos entalados no gradeamento das obras.

Espreitei por cima da curva das suas costas. Maldisse a hora em que as mencionara, evanescentes mas roliças, um sopro de primavera naquele inverno difícil. O olhar dele brilhara enquanto em mim crescia a certeza da farsa, mas era agora tal a convicção do velhote que achei que sim, que iam aparecer. Nada. Vi apenas um Tejo nervoso e pálido, reflectindo sem entusiasmo umas nuvens baixas cor de cimento. Mais ao longe chumbo. Para o lado do Bugio, uma nesga de prata a vir do mar.

Encontrei Corto junto ao Beco do Forno, quem desce a Calçada de Salvador Correia de Sá, para os lados de Santa Catarina. Eram umas três da manhã e vinha indisposto de um jantar de amigos perdidos e recuperados no fazer e desfazer de relações mal acabadas. Um jantar onde nunca deveria ter ido. O frio da noite e o ar húmido tinham-me despertado e o som dos meus pés nos paralelipípedos de basalto animava-me um pouco. Nesse confluir de tristeza e alegria breves deu-me para ter bom coração e estranhar o velho parado no meio da rua (como há muitos nesta cidade, loucos alguns, pedintes quase todos, nem que seja de um aceno).

Corto foi o nome que lhe dei logo, pelas duas filas de botões dourados subindo o casaco (faltava um) e o boné encardido de marinheiro encimando-lhe a testa listada de rugas, a cara escanhoada excepto aqueles pelos descendo pelos lados, suíças ou patilhas. De onde vêm estas palavras? As calças tinham as mesmas cores incertas da velhice, o cabelo pardo, entre o branco e o amarelecido. Eh Corto, berrei-lhe, estás perdido? Olhou-me com espanto nos olhos pequenos. As linhas da pele curtida desenharam um sorriso e perguntou-me com vago sotaque operático, Como sabe quem sou? Ri-me. Ora, com essa fatiota. Olhou-se como se espantado de se ver assim vestido e estendeu-me uma mão firme. Apertei-a.

Nas duas semanas que levo fora de casa, foi a primeira pessoa em quem toquei, creio. Por não mais que um segundo acreditei nas ciganas que liam o futuro nos calos da mão, rios e montanhas e viagens e vidas. Não era a própria mãe de Corto uma vidente de Malta? Preparava-me para seguir caminho quando recordações de adolescente me seguraram o passo, a tinta da china de Hugo Pratt, a barba de Rasputine, a Casa Dourada de Samarcanda. E se fosse? E se, mais idoso do que poderia ser humanamente possível, Corto Maltese tivesse finalmente visitado Lisboa e eu, por mero acaso me tivesse cruzado com ele, ali ao cimo das Escadinhas de São João Nepomuceno? Parei, de costas para ele, brincando com a ideia na minha imaginação.

Esquecidos estavam amores e desamores, enjoos e bebedeiras. Quase não se ouvia a cidade, ali no seu mais fundo coração, era talvez um sopro distante. Imaginei Deus olhando-nos. Ri de não acreditar nele. Dois homens num cruzamento, numa noite. Imaginei o ângulo dos nossos corpos na calçada, o ângulo dos nossos ossos colados à pele, ambos magros, expectantes. Talvez pudéssemos lançar-nos num tango, um delírio derviche. Pensei mas porque raio Corto Maltese nunca visitara Lisboa? Seria assim tão desinteressante? Fiz contas. Corto chegara à Segunda Grande Guerra? Aí sim, Lisboa era mencionada em filmes românticos entre Bogart e Bergman e um cônsul salvava judeus enquanto o país se perdia sonso, talvez ensonso. Seria ele?

Virei-me e encarei-o de novo. Olhava-me com curiosidade e algum medo. Talvez pensasse que o poderia assaltar, talvez estivesse apenas descrente da minha descrença. És mesmo Corto Maltese, o marinheiro? Sorriu-me como só Corto em Lisboa poderia sorrir, com mares e rios, aventuras e mulheres. Paga-me um copo e mostra-me as Tágides, que eu respondo-te. Ri-me e sem responder, comecei a descer para o Cais do Sodré. Acompanhou-me em silêncio num passo surpreendente de firme.


Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
Saiba como escrever na obvious.
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