
Ensejo. E as veredas que só conhecemos e reconhecemos quando chegamos mais cedo. Antetempo. É assim com as cidades e a descoberta dos lugares que se faz com a hora saltada, a metade da hora, às vezes até com os minutos ao acaso - frações tão pequenas de tempo. E sendo ponto. Vastidão.
Tomei gosto por essa coisa de anteceder e querer trazer para perto instantes arredios. Tem dias que eu enrolo e inverto. Arrumo o que pensar, os afazeres, para não sair de casa sobrepujando as horas. No relógio. Ali, o furto. O mais do entretanto não tem cabimento e toda quarta-feira eu vejo o amanhecer do compromisso sempre antes, na circunstância especial. Não tem jeito. Respiro e vou e serpenteio ocupações pelo caminho de ruas estreitas e tortuosas enquanto ensaio tudo o que eu vou dizer no encontro com a moça que escuta com o ouvido brando de uma engraçada tolerância. É fácil planejar no trem por causa do balançar. O pensamento chega a embalar, tem ritmo e cadência; e a gente, esperança. Sem fatalidades. E quando eu desço do metrô e saio bem no meio da calçada, com um vento bom desses que correm pelo corpo quando das vicissitudes, tudo se altera e se estende. No arco imponente o varadouro.
E então, na instância do de repente, primeira metade em que escrevo, encontro pessoas a olhar o céu azul de inverno, o intervalo de prédios, boêmia e nuvens - aquele que já não o pode tocar. Pois que era um olhar fixo de aglomeração. Um a um e o bolo de gente tão diverso estava formado. Junção. Para cima eu olhava, e também para os vapores condensados, tão formosos e cúmulos. Nada mais. Via o topo dos prédios, pequenas construções marrons e vermelhas, e as escadas de incêndio charmosas. Nada de ninguém, nada do saltar. Do outro lado da rua um tímido arranha-céu em reforma. No andaime o vazio. Seria o pedreiro que na instabilidade das coisas se pôs a despencar? Comecei a pensar que então o intuito da cena burburinho era do homem contemplar. Porque a gente esquece, no deslizar dos dias, desses assuntos e casos tão comuns e corriqueiros que quando toma por verdade pensa que são de um tudo, exageros.
A essa altura eu já havia me esquecido do encontro com a moça do brando escutar e deixei que as idéias e os quereres tropeçassem por dentro. Foi quando eu vi a envergadura. Na esquina da 4th Street com a Broadway o que parecia um acidente de carro na propriedade de um táxi bem amarelo e dois furgões brancos encardidos. Parei. Paramos todos. Na entrelinha da calçada fui anotando como podia e pensando em ambulâncias e bombeiros. Um homem de capa preta, muito alto e bravo gritava para alguém ainda sentado em um dos carros. E o trânsito seguia destinado. Seria uma grávida que dando à luz no táxi fez a vida estacionar? Mas desses repentes ele guarda um ou outro por ano e eu imagino que tudo para cima, na zona norte da ilha onde a maior parte dos hospitais que conheço estão. Posição relativa numa escala, a logística tênue.
Escrevendo reparei que na calçada cabiam muitas de mim, transitórias ou definitivas. E bicicletas e mudanças e carrinhos de bebê. Ainda envolta no tumulto do acontecimento torci o pé, dei de cara com um pedestre e quase entrei no prédio errado. O de tijolos avermelhados iconográficos. Contratempo. Abri a porta da Deli - uma mistura de lanchonete e mini-mercado tão característica da cidade - minha última parada antes do encontro. Estudantes ocupavam as mesas e bancos folgadamente enquanto saboreavam sanduíches prontos e wraps, uma variação do taco ou burrito, suculentos. Procurei, mas não havia lugar para sentar. Pedi um chá que me ajudasse a descobrir os meus próprios pontos cegos. Pedi um chá que fosse de camomila para não subtrair de nada, nem de ninguém aquele momento, em boa hora.
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