O caminho da floresta


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E então entrei na floresta, em Fava. O caminho era um corredor de luz soprado pelo sol raso entre os troncos e os prédios, um caminho cheio de sombras gigantescas de homens e mulheres, sombras de pés enormes que avançavam sempre vários metros à frente dos donos, desciam passeios, saltavam por cima dos carros estacionados e dos caixotes de fruta à entrada das mercearias. As árvores eram provavelmente tílias - embora já tivesse passado a época de floração e não se sentisse o perfume. Cheirava ao fumo dos carros, a fornadas de pão que as mulheres levavam no regresso a casa, e por vezes a queijo, aquele queijo branco, duro e intenso que boiava no soro salgado, em tabuleiros. O jantar começava a tomar forma na minha cabeça: um snack, uma mesa à janela; pão, uma fatia daquele queijo, azeitonas, e com sorte umas beringelas ou umas favas com hortelã, com um cordão de azeite a dar à costa na borda do prato. O Nurettin tinha-me falado dos bolos de abóbora com amêndoas ou nozes, e eu ia atenta.

Tinha-me ainda feito a lista das coisas que mereciam uma visita: a mesquita grande; o banho público do século XVII ("mais bonito que em Edirne"); os restos da torre bizantina ("mais bem conservada que em Edirne"); o bazar coberto ("mais barato que em Edirne"); um anfiteatro romano dos tempos do imperador Adriano ("não há em Edirne"); uma estátua de Ataturk, que, imaginei, não seria muito diferente das várias que vira nos outros locais por onde passara. Mas seguramente teria alguma coisa que a de Edirne não tinha. De resto, o meu objectivo era outro: era noite de festa, a festa que decorria sempre no fim dos dias de luta em Kirkpinar, e que - como seria de esperar - era mais bonita que em Edirne, com fogo de artifício e muita música.

O caminho das árvores parecia não ter fim, embora eu tivesse a sensação de que já devia ter chegado ao centro. Com alguns desvios que tinha feito à rua principal e o meu sentido de desorientação apurado, era natural que tivesse acabado por andar às voltas. Decidi entrar numa espécie de pastelaria onde havia outras mulheres. A mesa em que eu tinha pensado estava lá, no sítio certo para ver a rua e o balcão onde um homem de pele pálida e ossos salientes, que me lembrava uma qualquer personagem melancólica russa, ia recheando pães achatados a uma velocidade de máquina de embalagem. 'Constantin Levine?', apeteceu-me perguntar.

Em vez disso, prosaicamente, pedi a refeição que viera a imaginar pelo caminho, e uma Coca-Cola, por segurança. O homem trouxe-me a comida e, depois de algumas perguntas de circunstância que culminaram num exaltado 'Ronaldo!' e num grande sorriso, perguntou onde estava eu alojada. Eu não me lembrava do nome do hotel, mas, pela descrição e ao referir o Nurettin, o homem fez um sorriso ainda maior e apontou para si mesmo: 'Kamil! Eu sou o Kamil, o primo do Nurettin!'. Sorri-lhe de volta, estranhando, mais que a coincidência de encontrá-lo ali, que aquele homem angustiado saído de um romance de Tolstoi dormisse em cobertores com tigres. Fava abria-me, desta forma, todo um leque de possibilidades. O encontro valeu-me um café de graça e, à saída, o Kamil orientou-me na direcção do centro. Começava a escurecer.

Como são as casas das cidades - como são por dentro, do lado em que são realmente casas, o lado do avesso da cidade, e se aquecem na intimidade dos homens e das mulheres que as habitam? As portadas de madeira deixavam passar apenas linhas de luz, porosas como fios de lã. Havia cheiros de comida, vozes na televisão - e, sabia-o agora, cobertores com tigres, mas provavelmente também com zebras, pavões, leões e golfinhos, toda uma selva exótica confinada à largura de um colchão, ao relevo morno do corpo dos cidadãos de Fava e dos seus sonhos, bestas domesticadas, ronronantes. Toda aquela gente a entrar nas casas, deixando entrever apenas escadas sombrias e chãos pardos de mosaicos, um território neutro a separar a vida de fora e a vida de dentro. Os miúdos gritavam, como em toda a parte, e talvez mais nesse dia, antecipando a saída nocturna para a grande festa.

Desemboquei numa marginal de onde se via a curva do Maritsa, tranquilo entre o recorte das margens rasas e arborizadas; a rua descia ligeiramente para a direita, e passava em frente a uma fileira de casas de tons pastel ou cor de areia, com as varandas dos pisos de cima apoiadas em postes curvos de madeira, avançadas sobre o passeio. Algumas tinham frisos decorativos pintados de branco; eram todas desiguais - fosse no alinhamento da fachada ou na altura - como se cada um tivesse pousado a sua bagagem no local que lhe estava mais à mão e se tivesse sentado a apanhar sol e a ver o rio. Nos rés-do-chão iluminados havia lojas e pequenos restaurantes, que entravam pelo passeio dentro. Mais ao fundo, uma ponte de pedra com vários arcos ligava Fava a um ilhéu no meio do rio, e supus que, daí, continuasse para os arredores de Edirne. Cheirava a limos e a lodo. Sentei-me num banco de pedra a olhar o rio, a ver a cidade do outro lado, por trás de uma linha de vegetação quase negra; e foi aí que apareceu o cão.

Era um cão de porte médio, com o corpo, a cabeça e as orelhas como as dos cães que eu tinha desenhado na infância. O pelo era branco sujo, talvez amarelo gasto, curto mas muito denso e cheio de remoinhos. Sentou-se ao meu lado olhando ora o rio, ora a mim. Depois de o deixar cheirar-me a mão, arrisquei uma festa. Fechou os olhos e continuou a olhar para o rio. Fiquei a falar com ele um bocado, sobre Fava, sobre os rios e sobre os tigres adormecidos e os bolos de abóbora, que ainda não tinha conseguido provar.


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