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George Orwell - 1984

Rio de Janeiro: visão das alegres insanidades

A cidade à noite é cinza como as alucinações permissivas e se esqueceu que, pela manhã, pendura roupas coloridas de morros e mar. Ela agora não teve mesmo cor; foi só cinza, quase laranja: São Sebastião do Rio de Janeiro é a esfera dos desejos por si própria. A Avenida Brasil roda e tropeça pelas horas mais avançadas, espera gentes, abriga armas, passar-elas, famílias, eu, dança e conto.



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Quando eu tirei a foto do quilômetro da Avenida Brasil era porque eu queria me lembrar. É meu desejo da fotografia: capturar o que ia ser esquecimento. Começo daí como tentativa de explicar o abstrato do resultado e a insanidade do ato.

Já passava das dez da noite e há coisas que você sabe que não deve fazer e daí não faz; deixar a cidade num ônibus às passadas dez da noite é uma delas, tirar sua câmera fotográfica de dentro da bolsa em plena Avenida Brasil passadas as mesmas dez horas é outra. Mas era uma das noites psicóticas e ser assaltada parecia lucro. Essas são visões de uma irrazão que corrompe as pessoas desse lugar como se o resultado da dor fosse o riso.

Agora não posso contar melhor (com atenção aos detalhes) os motivos da minha ida e nem, algumas frustrações depois, da volta ao Rio de Janeiro pela pista inversa da mesma rua. 11:34pm e talvez alguns desavisados não atinem para as implicações reais desse singelo passeio: a Avenida Brasil, se grudando à Linha Vermelha, quando não tem mais sol, lembra um imenso estúdio de cinema fantasma, com quase mil dezenas de galpões industriais falidos ou que se fingem de falidos, oficinas mecânicas, espaços vazios, escuro, lixo, ar de paralisia arquitetônica como se fosse um eterno meio dos anos 90. Não parece muito normal que no alto de um morro todo preto da noite, esteja o castelo onde funciona a Fundação Oswaldo Cruz; e lindamente e iluminado, todo destoante daquele desolado que alguém um dia bem pode até sugerir transferi-lo de lá pr’um lugar menos real. Mas isso não importa, gosto é dos nomes daqueles tantos motéis néon para provisórios amores perros.

A imprudência e irresponsabilidade de estar ali sozinha no ônibus azul fotografando, se liga à informações básicas sobre as chances de se levar um tiro vindo de qualquer direção: “Mas tá tranqüilo hoje por causa do baile funk”, o cobrador do ônibus explicou. No meu ônibus anterior – onde comecei minha fuga noturna de pouca explicação, como eu já disse – havia passado por uma daquelas barreiras policiais e nenhum dos PM parecia tranqüilo de fuzis apontados para um grupo de homens (ou rapazes), sem camisa e braços para o alto. “É rotina”. Rotina. Fiquei sabendo, na conversa dos bancos de trás, que aquele sábado à noite era comemorativo para algum chefe do tráfico entre Ramos e Parada de Lucas, por isso a tal calmaria: só tínhamos passado por um único tiroteio, fora a barreira. Uma sorte.

Ao meu lado, sentado, um chileno dormia incrivelmente bêbado ameaçando cair no meu ombro pelas curvas afora. Olhei a meia noite no relógio e a impaciência da lógica – que me pegou de repente – quis ver logo o fim do trecho. O identifico sempre pela vista das ruínas da Cidade Alta; o concreto dos prédios de sete andares, idênticos entre si, parece ter sido levado pelo vento há mais ou menos trinta anos de forma que o que ficou são estruturas esqueléticas que denotam prédios de sete andares, idênticos entre si. Espantei de súbito o lugar da cabeça porque não quis pensar no que da minha vida houve lá – não muito, por que incômodo? O ônibus já estava num silêncio distraído quando passamos pela saída da ponte Rio-Niterói e pude extravasar meu alívio de reencontrar a Zona Portuária; então, nos alívios, tentei ajuizar pela primeira vez o que diabos fazia tão da minha cama e tão usando um vestido prateado. Pelo telefone celular, pedi abrigo a um amigo que, quase dormindo, perguntou onde eu estava e respondi que perdida: “perguntei onde está geograficamente, não a sua condição natural”. Em alta velocidade, o coletivo passou pelos armazéns numerados carcomidos, pelos grafites, pela urina e pelas palavras nas paredes numeradas, carcomidas e urinadas: SÓ JESUS EXPULSA O EXÚ DAS PESSOAS ao lado de VIVA A REVOLUÇÃO MAOÍSTA e de TRAGO A PESSOA AMADA EM 3 DIAS. Suspirei e houve o velho fascínio pela decadência.

Suspirei e houve o velho fascínio pela decadência.

A Avenida Presidente Vargas passou tão rápida que a Igreja da Candelária lá ao final nunca cresceu rápido no vidro da frente do ônibus. A despeito do horário, a rua cheia das fumaças de churrasquinhos suspeitos, churros e forró. Na Central do Brasil saltaram umas cinco pessoas, entre elas o chileno que acordara sobressaltado chamado pelo cobrador que gritava “é aqui!”. Foi substituído por um outro bêbado com camisa de partido político e violão – esse cheirava mal que não posso descrever. Um senhor negro de muletas pediu carona muito crítico em relação às pedras portuguesas que estavam descolando na calçada, concordaram com ele.

Largo da Carioca; ponto final. A condução parou num Centro da cidade largamente deserto. Já eu continuava de vestido prateado e meu único patrimônio, a câmera estava ali indefesa. “Vai saltar?” O motorista me olhou pelo retrovisor e fiz obrigada meu próprio parto, agindo como se age nessas horas: ignorando tudo o que te vai contra.

Decidi pegar um táxi à contragosto pensando em quantas cervejas poderia comprar com a dinheiro de cortar três quarteirões num cab. Atravessei a rua vazia às 12:20am, os taxistas fumando logo à frente.

Aquele grupo de adolescentes vinha andando nessa mesma direção, e sabe quando as idéias estúpidas sorriem se sentindo muito espertas? O salto da sandália girou autômato se afastando do objetivo inicial e, junto com a boca também autômata, fez os ouvidos ouvirem autômatos espantados a frase: "oi, vocês vão pra Lapa?"

priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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