Sentámo-nos a comer, antes do rio



 Cidades Conto Ensaio Ficcao Lisboa Romance

Quem são as Tágides, afinal, perguntou ele. Os nossos passos, por qualquer motivo, tinham virado à esquerda, conduzidos por um estômago que, no meu caso, roncava sonoro de fome. Tínhamos subido de novo a colina, costas para o Tejo. Teria eu chegado a jantar? Tanta fome deixava-me na dúvida. Corto assegurou-me que estava também esfomeado. Disse-o com uma voracidade de dias nos olhos, o que me fez duvidar de novo. Seria apenas um pedinte de barriga vazia?

Que interessava... enquanto caminhávamos, a sua fome recordou-me uma brincadeira minha de criança, de filho único. Inventava que era abandonado numa ilha deserta e salvo in extremis de uma morte de fome. E o que me salvava? Um bocado de queijo, um cubo maciço, amarelo e flamengo, que eu mordiscava em dentadas pequenas (não fosse o meu estômago estranhar o regresso da comida). E quem o trazia? Um marinheiro. Um marinheiro como Corto, que eu na altura ainda nem conhecia.

Eis-nos pois sentados no que poderia ser um normal snack bar, uma comum pastelaria, mas era na verdade um restaurante ilegal e obscuro num segundo andar de um prédio antigo, onde as paredes das escadas eram já só graffitis. Lá dentro, a luz era fluorescente, o chão de um vulgar mosaico espartilhado em quadrados, alastrando às paredes, o tecto manchado dos anos, alto e calado. À nossa volta havia jovens e velhos, gente animada como se não fossem umas seis da manhã, por entre quem circulavam os gatos da casa, solenes e mimados, roçando em pernas desatentas, saltitando em colos à espera de restos.

Cachupa e frango frito com limão. Corto não percebeu. Tive de lhe explicar que o restaurante era cabo-verdiano e Lisboa o centro do mundo, assim com o ar de quem não faz mal a uma mosca, deitada sobre um monte de colinas. Ele coçou o cabelo debaixo do chapéu e tentei lembrar-me se nos álbuns que lera, Corto chegara a ir até à Praia deleitar-se com mornas e coladeras. Reparei que lhe faltava a argola na orelha, mas não tive a certeza se o buraco não estava lá. Achei indelicado continuar a olhar.

Cachupa, expliquei eu, é esta coisa com grão e uma espécie de toucinho, enchidos e mistério. Cachupa é um prato de gente pobre, mas que nos enche o estômago. Bom, creio que é de gente pobre. Bom, não sei bem o que é e tem este ovo estrelado por cima. Sim, estrelado como o céu do Pacífico, mas em amarelo e branco. Sabe bem e alimenta. Pelo frango temos de esperar um pouco mais, avisou o senhor Vítor enquanto pousava cervejas e lamentava o destino do Benfica.

Entraram nesse momento três homens e duas guitarras. Um deles seria voz ou apenas um amigo. Vinham de um salão de baile ali perto, acabadinho de fechar. Ainda traziam música e a chuva que começara a cair brilhava-lhes no cabelo crespo, nos casacos. Acto contínuo cumprimentaram a sala, sentaram-se a um canto e começaram tocando baixinho, lamentando-se da vida nas cordas. Sem voz.

Aí Corto aproveitou para perguntar quem eram elas afinal, as Tágides. Meia cachupa tinha já desaparecido, enquanto eu me distraía com o ambiente. As Tágides, respondi com uma garfada a entrar enquanto a resposta saía. As Tágides foram inventadas por um poeta zarolho de nome Luís. Não sei se já ouviste falar, zombei. Não tinha ouvido. As Tágides eram as ninfas do Tejo, as musas desse poeta renascentista que o inspiraram, diz ele depois de as invocar a dez cantos de poesia sobre os feitos deste povo entre o qual te encontras. Os cabo-verdianos? Não, os portugueses! Quem zombava de quem?

Chegou o frango, alguém começou a cantar e eu calei-me para me ir alambazando com a iguaria. Atrás de mim vinha uma voz falando de saudade e outras coisas que as pessoas conhecem das ilhas no meio do Atlântico, por onde passaram os portugueses. A voz foi-me acariciando como o pelo dos gatos, eles próprios escutando. No fim, o silêncio era novo e só aos poucos foi voltando o tilintar de talheres e vozes. Descobri que na minha cabeça estava uma valsa de Nino Rotta, desde que ao cimo das tais escadinhas, encontrara este meu Corto.

Mirei-o de novo e, satisfeitos, levantámo-nos decididos a que desta vez nada nos desviasse do caminho do Tejo. Lá fora ia havendo palidez de madrugada.



luis soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
v2/sCidades,Conto,Ensaio,Ficcao,Lisboa,Romance,cidades
Site Meter