Um tigre, dois tigres, três tigres



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O barco para Fava era branco e verde, com cores desbotadas que condiziam com o aspecto geral das casas ao longo do cais e com aquilo que, deste lado, se adivinhava da cidade. Sentei-me à janela, num banco de madeira muito polida. Tirando um casal alourado de mochila sobre os joelhos, na outra ponta, não vi mais turistas.

Aborrecia-me mais o facto de ter perdido o festival do que o contratempo com o hotel. As imagens que conhecia da luta turca, em que os homens combatem completamente untados de azeite, com calças justas de couro preto, eram as que mais me lembravam as representações dos atletas gregos antigos: competição pura e dura, força e equilíbrio, pés nus no chão de erva e terra, sem patrocínios no equipamento, sem pódios, sem pisos almofadados - apenas a música dos tambores e gaitas tradicionais a juntar-se à euforia das multidões. Aqueles homens - alguns gordos, outros simplesmente musculados, com um ar demasiado brutal para suscitar devaneios nas donzelas ocidentais - lembravam-me minotauros, mas com as formas trocadas: pernas de touro; tronco e cabeça humanos. Era este festival, o mais antigo a seguir aos Jogos Olímpicos, que decorria num ilhéu no meio do rio, que eu acabava de perder.

Uma família cigana sentou-se à minha volta. Pareciam ter saído das gravações de um filme de Emir Kusturica; eles, todos de barrete preto na cabeça, um barrete alongado em cone cujo topo pendia um pouco para a frente, como um gelado amolecido. A mulher ocupava três lugares - não apenas ela, mas os sacos que trazia, enormes, negros, com formas que não deixavam adivinhar o conteúdo, atados com um nó gordo. Ajeitou o lenço na cabeça e suspirou de cansaço. Eu, que cresci ouvindo histórias terríveis sobre os ciganos, não consegui evitar um estado de alerta que tentei fosse o mais discreto possível. Olhei pela janela, para as águas agora acastanhadas do Maritsa.

A travessia durou cinco minutos. Os ciganos levantaram-se; a mulher fez balançar o corpo no movimento de quem vai enterrar uma enxada e pôs aos ombros os sacos, dobrando-se para a frente e desaparecendo entre a carga. Um dos homens levava às cavalitas um rapaz ainda novo, deficiente, que cantarolava.

E Fava começava por ser isto: um cais húmido que dava para um largo de piso amolgado cheio de vendedores ambulantes. Para a esquerda, uma rua desarranjada com pequenas tascas, algumas carroças paradas, carros e bicicletas em competição e uma maré de gente. Para a direita, um caminho improvisado por entre moitas e erva daninha, que ia dar não percebi onde. Era como se tivessem começado a desenhar a cidade havia apenas alguns dias, e ainda não tivessem decidido o que fazer daquela parte.

Fiz o meu melhor ar de quem conhecia o seu destino e telefonei ao primo. E o primo existia mesmo. Perguntei se tinham quartos no hotel. Uma pessoa, só, uma noite. Ele pediu-me que esperasse e, depois de conferenciar com alguém do outro lado, respondeu: "Não há problema. Tu vens, eu resolvo." Tentei decifrar o sentido daquela mensagem; não me descansava muito saber que havia um problema cuja natureza eu ignorava, mas que ele ia resolver. Era provável que ele achasse que um problema não era uma coisa que valesse a pena discutir com uma mulher. Mas recalibrei os meus receios e pensei que o pior que me podia acontecer, afinal, era ter de ir, depois de tudo, procurar outro hotel; e como já só tinha duas horas de sol, fui ver de um táxi para escapar à angústia de estar numa cidade desconhecida ao crepúsculo sem ter onde dormir.

O hotel era mesmo um hotel. Era o que dizia cá fora. Ficava numa de muitas ruas de prédios baixos e lojas de rés-do-chão, num bairro residencial próximo do centro histórico. Não tinha estrelas na fachada, como era de esperar. As portadas das janelas, de madeira escura e ressequida, estavam fechadas, e pela porta via-se apenas um corredor pequeno de mosaicos pretos e brancos, cortados ao meio pela luz do sol. Ao lado havia uma loja de tecidos, com grande rolos empilhados na vertical e um cesto de arame cheio de sutiãs coloridos. Ouvi vozes a vir do corredor e, antes de ter tempo para me desviar e observar os donos do hotel, última hipótese de fuga, um rapaz jovem apareceu à porta e sorriu-me. "Entra!", disse ele. Deduzi que a parte do "Eu resolvo" já estava ultrapassada.

O quarto era no primeiro andar, virado para as traseiras (vista para terreno baldio), e tinha uma cama com lençóis às flores e um cobertor com dois tigres de proporções bíblicas sobre fundo vermelho escuro. Havia uma mesa com um candeeiro. A casa-de-banho era ao fundo do corredor. O quarto tinha a janela aberta e qualquer coisa que me dava a sensação de que alguém tinha acabado de sair.

Consegui que o Nurettin - era esse o nome do rapaz, filho do primo do empregado de café - me explicasse qual o problema que tinha resolvido: tinham a casa cheia por causa do festival. Mas era tudo família, e assim tinham pedido a um outro primo, o Kamil, que partilhasse o quarto de ainda um outro primo, para eu ter onde ficar. O Nurettin encheu o peito para me dizer, articulando as palavras como se declamasse um poema, que havia três primos dele que tinham participado no festival. E tinham um tio que, dez anos atrás, fora o vencedor. Era a maior honra a que podiam aspirar.

Já o Nurettin, pensei eu, nunca poderia ser um desses homens a brilhar de azeite e carne, que se enfrentam como touros de chega transmontanos. Tinha uns grandes olhos cor de avelã, brilhantes, rodeados de um finíssimo e denso tapete de pestanas. Como era possível ter tantas pestanas? E eram longas, com uma curva requintada, como a curva graciosa das costas das ginastas quando agradecem ao público no final da prova. Ninguém podia combater um homem com aquelas pestanas. Eram arma para outras batalhas.

Lá fora, o sol já se estendia ao comprido sobre as ruas. O Nurettin apontou-me a direcção do centro: "Segue as ruas das árvores". Nunca me tinham dito uma coisa assim. E eu segui as árvores.

condessa de Ségur

vive num recanto da periferia do império, onde não chegam as ordens do imperador.
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