A Guerra do Fogo: a pré-história no cinema

Diante da embasbacante superprodução 10 000 a.C., que promete uma nova visão sobre a era pré-histórica (se não uma visão correta, ao menos mais empolgante), a película francesa A Guerra do Fogo vale aqui uma revisita.



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Uma das maiores dificuldades no ensino da pré-história para crianças e adolescentes é estimular o recuo imaginário à um tempo absurdamente remoto e nisto demonstrar que, aparentemente, pequenos eventos naquele tempo e espaço representaram mudanças drásticas no relacionamento dos hominídeos com seus semelhantes e com a natureza ao redor. Como ilustrar a pedra lascada como um avanço tecnológico à pré-adolescentes donos de gadgets que fazem tremer aos mais inovadores canivetes suíços?

É possível que muitos de nós tenham feito visitas a museus de história natural ou que tenham passado horas observando reproduções de desenhos rupestres sem fazer muita idéia do que afinal havia ali para ser visto. Que diabos tinham aqueles rabiscos de mais?

Mas, graças a professores menos ortodoxos, é igualmente possível que alguns de nós tenham tido a sorte de esbarrar na escola com o filme A Guerra do Fogo; o maior e único clássico do cinema sobre o assunto, aquele em que passou na única aula sobre pré-história em que você (quase) não dormiu. Diante da superprodução 10 000 a.C., dos mesmos produtores de Independence Day e The day after tomorow, prometedor de uma nova visão sobre a era pré-histórica (se não uma visão correta, ao menos mais empolgante), a película francesa vale aqui uma revisita.

Parece que os milênios de anos não têm sido suficientes para trazer ao interesse da cinematografia os nossos ancestrais ocupantes de cavernas; salvo ligeiras aparições ou referências como em 2001, Uma Odisséia no Espaço ou Planeta dos Macacos, o assunto tem sido sistematicamente relegado àqueles filmes típicos de meio de tarde sob títulos como "Meu amigão das cavernas", ou seja, esboços nublados de pouca intenção didática. Há ainda A Era do Gelo e umas dúzias de documentários: o primeiro peca pela superficialidade teórica necessária num desenho animado e o outro pelo excesso de erudição e pelo ritmo pouco atraente para a maioria. Mas, ainda que 10.000 a.C. tenha um orçamento milionário e enredo blockbuster realmente capaz de atrair novos interessados para o assunto, sai em larga desvantagem quando comparado ao filme de Jean-Jacques Annaud.

Lançado em 1981, numa produção Franco-Canadense, La Guerre du feu é um longa que trata de levantar hipóteses sobre a origem da linguagem através da busca de três homo sapiens para conseguirem uma nova fonte de fogo perdida por sua tribo; este, o fogo, elemento divino e tenebroso para eles. O delírio sobre como esses três guerreiros se relacionariam/comunicariam, encontrariam, disputariam e fariam interações subjetivas é a base do roteiro assinado por Anthony Burguess, foneticista e consagrado autor do livro Laranja Mecânica. Burguess faz crível as adaptações e linguagens usadas por aqueles hominídeos além de fazer compreensível toda uma história recheada de grunhidos, mamutes mal-acabados e situações que, aos nossos olhos de hoje, não parecem mais que absurdas.

Fica-nos como destaques inesquecíveis o comportamento muito peculiar dos tais guerreiros incumbidos na recuperação do fogo: há a cena em que um deles taca uma pesada pedra no outro e todos - inclusive o apedrejado, com a cabeça sangrando - têm um ataque de riso. É clássica ainda a cena em que algumas fêmeas ancestrais vão refrescar a garganta num riacho e uma delas, ali acocorada, é surpreendida sexualmente por um macho das cavernas. Bem, digo surpreendida por falta de palavra melhor, já que a tal fêmea não parece muito surpresa: os alunos vibram.

A Guerra do Fogo prossegue surpreendendo a audiência pela sensibilidade com que trata um tema tão complicado, onde povoam ainda poucas certezas e muitas teorias. Como cinema, revela, dentro da simplicidade da produção, uma narrativa poderosa onde, sem dúvidas, nos identificamos como seres dotados de grande capacidade de adaptação e cujo tempo parece tornar sempre mais intrigantes.

priscilla santos

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