A lavanderia Automat


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A máquina parou de girar no meio do ciclo com as roupas cheias de sabão e amaciante. Era tarde e Joana fazia lavanderia na Continental Laundromat. A atendente do local deu mais sabão e moedas, mas não amaciante. A vida tinha sido dura com ela. As duas discutiram entre dois programas de auditório e não se entenderam. Era o sotaque. Inflexão peculiar.

Um livro, um pedaço de papel e lápis, às vezes uma caderneta. Música sempre. O dia da lavanderia e do desassossego. Já fui e usei três diferentes, todas aqui mesmo no bairro, mas não tem jeito, acabo voltando para a mesma onde houve o desenlaço. Pois que no início, a novidade - a máquina de troco, os carrinhos, o o-quê-vai-aonde-e-em-que-ordem, as pessoas, sempre elas. As duas máquinas, de lavar e secar. Verdadeiros trambolhos. Também já mudei a minha rotina inúmeras vezes. Troquei os dias e os horários, fui sozinha e acompanhada, entretanto e geralmente, o eu sozinha basta. E apenas uma vez, uma única vez, usei o serviço de drop off. Estava doente de inverno.

As televisões, duas, são panos de fundo e estão sempre ligadas nos canais para ninguém ver com o volume exaltado. O controle remoto no lugar ausente. Então é assim?, perguntaram-me uma vez. Todo mundo usa a mesma máquina? Tem sapato naquela você viu? Todo mundo que você conhece e não conhece, e se pensar é muita gente. Muita história e hábitos diferentes em termos de vida. Nessas horas, o de menos. E quando sozinha, no minuto em silêncio, gosto de pensar se não ocorre o mesmo com os outros. Digo, a mente desenhando. E imagino se eles deixam se embalar pelas idéias e pensamentos que deslizam no ato de dobrar, abrir e fechar a secadora. Tão repetitivos. Porque para mim a vida aparece mais límpida, quase branca, num compreensível psicológico. No não-automático.

O momento casual em que vejo famílias inteiras, um ou outro casal. A mãe e a criança arrastando o cobertor. Jovens. Todos no lugar para não estar. O lugar que é passageiro e emburra, mas que compõe a cidade. Fico com vontade de chamar de evento, o evento cotidiano. E cogito se as lavanderias, que estão por toda parte, com o tempo não se transformaram em instituições. Parece-me que Hopper não as pintou. Como? Deve haver um ou outro blues. Só pode. Washing Machine. E simples assim, tenho uma amiga que carrega as roupas no bagageiro do carro e aproveita para lavá-las em qualquer canto da cidade. A laundromat itinerante. E eu. Eu continuo onde estou porque há mudanças e mudanças.

As atendentes, rostos novos e abatidos, trabalham no esquema de turnos. E se não fosse a rotatividade constante seria fácil reconhecê-las como parte do lugar. Lembro-me do dia em que uma delas chorava em abundância por causa da imigração. Quis ter feito algo para ajudá-la. Quis ser menos covarde. Além do dono, um senhor grego que nunca está lá, há um homem de meia idade que nunca deixou o local. Ali assiste TV e de vez em quando ajuda nas tarefas do estabelecimento. Usa o banheiro como se estivesse na sua própria casa. E talvez esta seja a sua casa durante o dia. Já o peguei dormindo despreocupado, assim como já o vi lavando a própria roupa. Anda pelo estabelecimento como se fosse senhor absoluto e me cumprimenta na rua como um vizinho o faria, e não é?

Ontem nevou e eu saí para lavar a roupa com a neve caindo, rarefeita. As sacolas de roupa, o casaco e tudo que servia de superfície ficou entre-branco, naquele instante que antecede a neve desaparecer. E ventava muito levando o tempo para o mais alto. Um esquilo coçava o nariz e olhava para a rua como se soubesse que era domingo. Eu precisei desviar da irregularidade no chão e quando olhei, ele já não se encontrava ao lado dos cogumelos e esculturas de sapo no jardim. Atravessei a rua e notei o carro da funerária com o farol aceso. Há uma funerária ao lado da lavanderia, bem, quase ao lado. Até. Há uma funerária, pensei. E sempre, ninguém nunca chora o choro ideal. Exceto nos dias de chuva - em dias assim, em que o céu permite, a gente aproveita e lava a alma que veste o corpo.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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