À noite refazemos os passos


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Onde íamos nós? O Nurettin, meio passo à frente; eu, a tentar manter-me suficientemente perto para me sentir segura sem ser íntima. Subimos a marginal até ao sítio onde tinha encontrado o cão, que continuava atrás de mim, mas em vez de voltarmos para o centro, para as ruas da floresta, continuámos em frente.

- É mais perto por aqui? - perguntei, e ele disse que não. - Mais seguro. Há gente esquisita nas ruas das árvores, à noite. Ciganos e assim. Bêbados, desempregados. Normalmente não fazem mal, mas é melhor irmos por outro caminho.

Se eu fosse desenhar o nosso percurso naquela noite, o mapa seria bem diferente do oficial. Ali, Fava era uma cidade pintada com tinta-da-china, impressa em papel amarelo e poroso, as folhas húmidas e dobradas pelo uso. O caminho do Nurettin atravessava terrenos baldios cheios de mato, com jornais, plásticos e peças de roupa suja e abandonada, como quadrados de uma banda desenhada a preto e branco que íamos furando, um a um, à revelia das quatro paredes que o autor marcara. Passámos por ruas tortas e escuras, com as paredes roídas e manchas no chão, onde eu provavelmente não me atreveria a ir de dia, receando o que houvesse para lá da curva, medo burguês e traiçoeiro.

Seguimos todos os carreiros clandestinos na relva dos jardins, que são os percursos reais do dia-a-dia, as decisões das pernas preguiçosas ou cansadas, exigências e teimosias populares cortando a torto ou a direito e ignorando, como em quase todo o mundo, os caminhos largos de brita cuidadosamente penteada que os ideólogos dos jardins traçam, dizendo com a ilusão de todos os criadores: 'Por aqui passarão os habitantes da cidade!'. Tudo falso, tudo invenções de gente sentada que sonha cidades que nunca existirão. Saltámos um ou dois muros baixos, que separavam nada de coisa nenhuma, e fizemos um traço oblíquo e desajeitado numa pequena praça cujo centro estava geometricamente assinalado, urbi et orbi, pela estátua de Ataturk - um boneco pesadão de bronze cujo vinco das calças parecia ser refeito todos os dias por uma viúva nostálgica.

Cruzámo-nos com o bazar, que era atravessado a meio por uma galeria comprida e escura. O Nurettin virou para lá sem me dizer nada; eu, distraída por um passo, não me apercebi, e quando olhei para trás já não o vi.

Ali estava eu, em Fava: sozinha, entre um túnel como o ventre de uma baleia, de um lado, e do outro um mar confuso de ruas, esquinas, candeeiros, pontes, sinais de trânsito, prédios de luzes apagadas, coisas perfeitamente inúteis, um labirinto pior que qualquer floresta escura, e por vezes o som longínquo de risos e vozes a rebentar como uma bolha de água à superfície.

Aqueles que já experimentaram chamar o nome de alguém numa cidade, à noite, sabem do que falo.

O Nurettin não respondeu. Fiquei parada a ver o pânico subir, e já me chegava à cintura quando me apercebi, em sobressalto, do cão, que passava encostado à parede para dentro do túnel. Fui atrás dele, e corri até ver a sombra do Nurettin levantar-se do outro lado daquele mar de negrura. Parou à minha espera, mas aparentemente sem se aperceber do que se tinha passado. Eu não disse nada.

Por ali já havia gente nas ruas, e duas ou três lojas abertas, misto de bar e mercearia, com homens a rir alto e a beber. Eu continuava perdida, até que, de repente, o Nurettin entrou por uma porta, com a mesma autoridade silenciosa com que virara para o túnel, e pelo quadriculado do chão percebi que tínhamos chegado ao hotel, e que nos últimos cem metros fizera o mesmo caminho que naquela tarde ao vir do barco sem ter reconhecido nenhuma das coisas por que já passara. O cão enroscou-se na caldeira de uma árvore, e eu fiz-lhe uma festa e agradeci-lhe.

Peguei na chave do quarto, dei as boas noites ao Nurettin e, antes de subir, bebi um copo de água na cozinha, olhando com alguma inveja as panelas tranquilas, emborcadas sobre a bancada de pedra. Lá em cima, os olhos dos tigres continuavam bem abertos; um deles sentava-se ao comprido como uma esfinge, mas eu não tinha vontade de enigmas; o outro acabava de chegar não se sabia de onde, e espreitava-me cada movimento enquanto eu me despia e me aproximava da janela, farejava-me um resto de medo na roupa atirada em monte para cima da cama. Sentei-me ao lado dele, deixei-me cair para trás e enrolei-me. Os lençóis cheiravam a Tide.


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