A que horas é o barco?


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Sempre gostei de estar em sítios cuja língua não entendo de todo - letras enormes que falam sozinhas em nomes de lojas, títulos de jornais, avisos públicos, sinalizações, coisas que ouço uma e outra vez na rua, na boca das pessoas, até por vezes deduzir um sentido (muitas vezes errado); gosto sobretudo de quando me deparo com uma palavra qualquer a que me afeiçoo, e cujo significado desconheço, mas que ao longo dos dias repito com o prazer de quem rola um caramelo de um para o outro lado da boca - como o 'tuka' búlgaro, o 'kaksi' finlandês, ou o 'balak' árabe. O 'kaplan' turco, tigre, que tinha aprendido na leitura da sina, era mais uma delas. A linguagem e os seus equívocos são ainda um dos poucos riscos que, num mundo mapeado para facilitar a vida a quem vem de fora, ou talvez para assegurar que seguimos todos os mesmos caminhos, são permitidos numa cidade estranha.

O Kamil parava de minuto a minuto para falar com algum conhecido. Um aperto de mão, beijos (dois? três?), frases de circunstância, e eu a olhar, a ouvir, a aproveitar a dispensa do entendimento do discurso para melhor apreciar feições, gestos, sorrisos, vozes, o sobe e desce das vogais. As pessoas pareciam-me mais bonitas assim, sem eu saber o que diziam.

Fi-lo parar num alfarrabista de esquina. Depois de vasculhar dois ou três caixotes, comprei um livro de capa dura com ilustrações infantis que, a julgar pelo traço, seriam dos anos 60, acompanhadas de meia dúzia de frases escritas numa letra séria e encorpada, um preto sobre preto de excesso de tinta. O vendedor embrulhou-o num papel pardo muito frágil, com o cuidado e a demora de quem veste uma noiva; o Kamil perguntava-me para que queria eu um livro que não percebia, e eu disse que gostava de ver as imagens e imaginar o resto - os diálogos, as exclamações naquela página em que a menina, que tinha uma saia verde, corria monte abaixo atrás de um cão, com uma inclinação do corpo que parecia a de um atleta de velocidade à espera do tiro de partida. O cão - o outro, o de Fava - que desaparecera da minha vista durante a ida à cigana, seguia com grande concentração as manobras delicadas do alfarrabista.

Começava a sentir-me confortável em Fava: reconhecia alguns lugares (uma loja, uma esquina mal feita a dar para o rio, um grupo de três árvores num baldio, o toldo de um café), embora ainda não conseguisse fazer um mapa mental que os relacionasse no espaço. Fava era um puzzle modesto, de que eu só fizera alguns pedaços isolados, sem ter encontrado as peças que os ligavam entre si. Por vezes percebia ao longe a mesquita; ou a rua arborizada que levava ao anfiteatro; e uma vaga noção da distância e da orientação das coisas tomava forma. A inclinação suave do terreno e a acumulação subtil de ruas ligeiramente curvas no centro permitiam-me sempre, ao parar, pender para o eixo central - o rio Maritsa, a ponte, de onde saíam todos os caminhos que eu já conhecia. Ocorreu-me, a despropósito, que era aquele o rio que levara a cabeça de Orfeu, despedaçado pelas mulheres da Trácia que ele rejeitara depois de perder Eurídice.

Mas era a hora de almoço, e o Kamil apressava o passo, e eu atrás dele, e o cão atrás de mim. Faltava-nos só um elemento para sermos os quatro músicos de Bremen. Comecei a cantarolar um faduncho para ver o que ele dizia, como reagia à música da minha língua, que provavelmente nunca ouvira. Mas o Kamil era uma dessas almas de impassibilidade tímida, que erradamente tomamos por indiferença, e a única reacção à performance foi do cão, que deu uma corrida e passou para a frente do cortejo.

Pela segunda vez, a entrada no hotel apanhou-me desprevenida, e desta feita nem tinha a desculpa de ser de noite. Qualquer coisa naquelas ruas, dispostas geometricamente, impedia-me de reconhecê-las a tempo. O cão ficou mais uma vez na rua, e o Kamil garantiu-me que lhe daria alguma coisa de comer. De qualquer forma, disse, ele sabia tratar da sua vida, era bem conhecido na cidade, e descobria sempre os visitantes, que acompanhava enquanto ali estavam. Hoje era eu, amanhã seria outra. Subi, para ver o que andavam a fazer os tigres, e desci de seguida, para cumprir o melhor possível o meu papel de hóspede.

A mãe do Nurettin estava ainda na cozinha, a braços e mãos e olhares vigilantes com duas ou três panelas. A Fadik ia pondo a mesa na sala, o pão e as azeitonas pretas, uns pratinhos pequenos com molho de iogurte. Tinha um lenço diferente, cor de caramelo. Não me deixaram fazer nada, mas com alguma insistência consegui acompanhar os preparativos. As tarefas intermináveis das mulheres, obras feitas para desaparecer. Por gestos, pedi que me fossem dizendo o nome das coisas que ia comer. Havuç. Kuzu eti. Yoğurt. Ekmek. Nane. Çorba. Zeytin. Portakal. A Fadik ia nomeando o mundo, com uma dicção solene. Por algum motivo, quando lhe respondi ao çorba com "pão", desatou a rir-se e a repetir muito a palavra - pão, pão, pão - esforçando-se por fazer uma nasal que lhe saía sempre ao lado. Pão.

A mãe gritou, o Nurettin e o Kamil sentaram-se, sentaram-me. O resto da família, disseram quase em tom de desculpa, estava em casa dos pais do Kamil. As duas mulheres da casa pousaram na mesa as tigelas com a comida, e alimentaram-me o mais e melhor que sabiam. E sabiam-no bem.

A que horas era o barco para Edirne?, perguntou o Nurettin, que ia acompanhar-me até ao outro lado, onde tinha uns amigos para visitar. Eu não sabia. Os pratos foram desaparecendo da minha frente, um a um, na indolência habitual dos fins de refeição, e por fim a mãe do Nurettin pousou, com delicadeza de joalheira, um tabuleiro cheio de bolos de abóbora - ovais, de um tom laranja-terra, cobertos de amêndoa torrada e falhada em lâminas. Olharam todos para mim, fazendo-me sinal. Peguei num, e dei a primeira dentada.


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