Apreciando um doce e mil cheiros

A existência grave só quis habitar as esferas onde não fazemos paradas; ver os sons, ouvir azuis, tocar sinos. A existência grave em São Sebastião se desmancha na permissão dos sentidos, quereres das coisas muito poucas das que não temos certeza se causam alegrias prejudiciais porque criou-se a delícia.


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

O primeiro cheiro que me chega perto do nariz é o de damascos. Às vezes acho que é porque nunca comi damascos, não assim, a fruta, já geléias. Deve ser por isso que eu entro e penso em como o cheiro, de tão coral, se espalha entre os outros e sobrevem.

As ruas estreitas nunca mais me lembraram maquetes depois que cresci; quando os pés vão gastando as pedras do chão, quando o corpo já entrou em contato direto com a parede e quando os olhos mediram como devia ser a queda do telhado, as noções fantasiosas param de ser inexistentes e é possível, finalmente, ficar fascinado com a realidade vinda pros sentidos. São sobrados ou quantos andares? Por que não nos lembramos bem do que acontece sempre? E é um de frente para o outro à pouca distância porque assim o sol vai bater e, fora o meio dia, podemos contar com a sombra diagonal, contar com...

A casa que vende é grande, essa tem dois andares e é ampla, pouco arejada, o que favorece. Na porta ficam gordas sacas de temperos, no meio, colunas de aquário com uvas secas, tâmara-sem-caroço, mel com própolis, cravos-da-índia, nozes, pistache, desconhecidos e aqueles inacreditáveis paus de canela que têm o tamanho de um braço. A soma de uma prateleira com bacalhau, outra com chocolate, outra vinhos e mais então esfiha doce causa um caos olfativo e a minha sorte é que me prendo em ver, meu sentido é de ver mesmo sem óculos, mas as Casas Pedro são lugares da experiência do tato que causa um milhão de perfumes entre as comidas, os condimentos e os vendedores.

Saí com um clandestino doce folhado de maçã dentro dum saco pardo. Mordi ali mesmo, o rapaz mal tinha terminado de embrulhar com o chapéu branco, eu mal agradeci o troco de tão ansiosa e criminosa. Sinto muitas saudades do meu pâncreas, o único que eu amei. Não vou dizer que as descrições não são tentadoras, nem que não goste delas, admiro as descrições de Praga que faz Kundera porque me asseguram o equilíbrio entre a percepção individual e o organismo metropolitano coletivo que é parte externa do nosso próprio. Por que me apego então ao meu próprio organismo e ao meu próprio pâncreas? A mordida nessa receita tem uma textura, um cheiro, um risco que vão me formando lembranças do tempo paralisado, mas que vai refreando os segundos tão distraidamente que tudo ao redor se torna capturável, isso é um momento.

Desde o século XVIII, apesar das mudanças de nomes sofridas, a Rua Senhor dos Passos e a Rua Buenos Aires ficam ao lado da Rua da Alfândega. Na frente delas há um espaço aberto, quase um delírio verde, muito verde, cotias e com árvores e até um pavão, milhares de gatos fincados bem no meio do caos do Centro do Rio de Janeiro. Um pavão azul! As cotias cruzaram o portão principal do Campo de Santana [Praça da República], as cotias comem biscoito cream cracker segurando um pedaço (de broa de milho) entre as patinhas.

A Senhor dos Passos começa com uma banca de frutas especializada em frutas para sobremesa; são abacaxis cortados em fatias, mangas em cubos, caixas plásticas pro transporte até o escritório e junta gente ali pra pedir nem que seja uma prova, escolho melancia. Mastiguei com calma, com a língua fazendo o enquadramento, guardar o sabor de cravo, da massa. A Saara talvez seja um bazar, queria conhecer um bazar como os orientais conhecem e erguem, compram, vendem. Lembro que, antes de agora, aqui era um pedaço de Oriente Médio, de imigrantes sírios, libaneses, israelitas, turcos, que fugiram da Primeira Guerra. Sobrados: comerciavam no andar de baixo e se abrigavam nos de cima. Depois vieram os argentinos, mas os portugueses já estavam aqui antes dos índios; agora todos falamos chinês, coreano e japonês só pelo gosto de permanecer Oriente, extremo.

E se eu saísse do lugar, se andasse? Vi tudo tão infinito agora, as pessoas, os rapazes puxando as carroças com mercadoria (anunciam: "olha o pesado!"), as moças na porta da joalheria segurando folders e as que estão na porta dos restaurantes segurando comandas. Outras - gosto de canela, torci para que fossem parentes das canelas gigantes que ficam no meio da loja - pousam ao lado daqueles manequins de mulher que só têm a cintura pra baixo, aqueles da calça jeans apertada, invejante; apoiam o cotovelo e comentam algo que nunca consigo ouvir por serem mistérios que elas nunca me deixam fazer parte. As lojas com roupas da indianas, os indianos, aquela casa que tem elefantes de bronze e estátuas tribais à porta, imensas, e aqueles abanadores de plumas! Chinelos, tecido, chapéu, sacola, lenço, fralda, flor. Tem de plástico, bem baratinho.

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Igreja Nossa Senhora da Lampadosa e um pedinte sem as pernas caminha com as mãos [Rua dos Inválidos], as bocas da bermuda feitos nós, mostra a mão preta com poucas moedas dentro e talvez alguém ponha mais, mais até que as velas da igreja fachada azul. Tantas velas... como eu tinha medo da Nossa Senhora da Lampadosa! Nunca entendi porque minha mãe me arrastava ali porque eu queria correr, queria entrar na parafina e depois entrar na parede por não poder concorrer com os objetos, me esconderia neles. Na esquina a casa de fantasias de carnaval (começo agora a pensar que imagino elefantes de bronze à porta de muitas lojas ali pelas ruas da Saara). Suspiro porque não sou passista. O pedinte saiu ou entrou onde não vi e os auto-falantes da Rádio Saara gritaram um jingle bizarro-em-cômico sobre um lugar que só vende meias.

Passei a mão na boca por conta dos farelos, baixei os olhos pro saco pardo malhado de gordura. Delicioso folhado de maçã... peguei o embrulho de plástico e amassei com o papel, os guardanapos, fundo da lixeira preta. Senti tudo colorido com pesar pecaminoso dos que não se desfazem na saliva.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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