Esta rapariga precisa de se alimentar


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Demorei alguns minutos a perceber que eram limões o que tinha no parapeito da janela. É difícil explicar a quem não sofre de miopia como é o mundo visto através de cinco dioptrias. Uma avenida movimentada numa cidade, por exemplo - à noite é um borrão escuro cheio de grandes balões coloridos e translúcidos meio sobrepostos - semáforos, candeeiros, luzes dos carros. Tiro os óculos de vez em quando para ver o mundo assim, ver efeitos especiais que só aos da minha espécie são concedidos. E isso começa logo ao acordar, todos os dias, num mundo pouco nítido.

Tinha, portanto, três objectos não identificados em cima do parapeito da janela, e só franzindo os olhos numa linha muito fina percebi que eram limões. Pus os óculos e deixei-me ficar deitada a vê-los, agora com a nitidez realista comum ao género humano. O sol batia-lhes do lado esquerdo, abrindo o amarelo em luz viva, irradiante, silenciosa, no rectângulo justo da janela. Quem teria deixado ali aqueles limões? Tinha a certeza de que no dia anterior, quando chegara ao quarto, não estavam lá. Ou os tinham posto durante o meu passeio, ou - hipótese suspeita em outro lugar que não Fava - enquanto eu dormia. Tudo o mais no quarto me parecia normal, inclusivamente os tigres, que dormiam ao meu colo.

A explicação veio mais tarde, quando eu tomava o pequeno-almoço e via a mãe do Nurettin esquartejar uma abóbora enorme na cozinha. Tinha sido ela a deixá-los lá, à falta de flores. Os três limões estavam agora nas mãos rosa-pálido de uma rapariga de uns dezassete anos - Fadik, a irmã do Nurettin - e iam acabar na panela do almoço, fim de uma carreira efémera de naturezas-mortas. Entretanto, a rapariga, que me via comer com um toque de orgulho maternal, explicava-me que me esperavam para o almoço, para provar os bolos de abóbora. Protestei contra o trabalho que estava a dar, mas quando a Fadik transmitiu à mãe o meu protesto, ela arrancou a faca da carne laranja-fogo da abóbora, virou-se e olhou-me indignada, com a mão cheia de cordões de pevides húmidas. Gesticulou qualquer coisa em turco, que a filha se limitou a traduzir com uma vigorosa negativa. Elas queriam alimentar-me, e eu não podia recusar. Fava era uma dessas cidades cuja hospitalidade assume o seu máximo esplendor no estômago.

A Fadik ia-me traduzindo as perguntas da mãe. Fava era magnífica? Hesitei, e por cortesia disse que sim. Pausa. O rio era magnífico? Pois - sim. O fogo de artifício tinha sido magnífico? Sem dúvida. O quarto era magnífico? Foi neste momento que percebi que se tratava de um problema linguístico, e que algum dia, nas aulas de inglês, a Fadik tinha aprendido aquela palavra, e só aquela. Provavelmente gostava do som - magniiiiific, dizia ela, e quem era eu para desmenti-la.

Mostrou-me a estante dos livros, na sala escura e forrada de tapetes. Entre eles, Nazim Hikmet, que parecia fugir de todas as livrarias turcas antes de eu lá chegar, exilado mesmo depois de morto. Comunista, disse ela com ar reprovador. Tirei o livro da prateleira e pedi-lhe que me lesse um dos poemas. Os sons do turco e a entoação dela chegavam-me sem arrepios, como uma degustação tranquila. Mais tarde procurei o poema nos meus livros:

A Viagem

A viagem fazêmo-la num qualquer modesto cargueiro Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado? Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado? O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente Não era igual ao que à noite deixávamos para trás? Quantas estrelas desfilaram à nossa frente Roçando as águas. Não era cada aurora o reflexo Da nossa grande nostalgia? Mas é em frente que vamos, não é verdade?, é em frente que vamos.

Eu estava sonolenta e sentia-me, naquela cozinha velha, como num ninho, vendo mãe e filha nas suas conversas mornas de mulheres em casa, sem entender uma palavra. A Fadik ajeitava o lenço em frente ao espelho, prendendo-o por cima da orelha com um alfinete de pedras brilhantes cor-de-rosa. Por momentos pude escapar aos juízos políticos do meu mundo e apreciar o lenço azul turquesa, que lhe cobria o cabelo e o pescoço, como um simples adereço de beleza, um sinal de pudor e vaidade. Pela janela junto ao tecto entrava uma coluna de luz que batia no chão do outro lado, e o ar ganhava manchas e meios tons que me lembravam a igreja abandonada de Kayakoy, onde tinha estado dias antes.

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Mas era a hora a que tudo acontece na rua - a começar pela luz, a mesma da cozinha, que crescia e se prendia a todas as coisas, e a cada minuto mudava todas as coisas. Fui ter ao bazar, por onde eu passara com medo do escuro, e de que me aproximava agora sem perceber como podia ser tão perto do hotel quando, na noite anterior, tínhamos demorado tanto tempo. Eu podia imaginar que ao nascer do sol, depois das primeiras orações, os vendedores entrassem ainda quase em silêncio, passassem entre os caixotes fechados, em direcção a balcões de madeira silenciosa e opaca sobre os quais pousavam a carteira, as chaves, deslizavam a palma da mão húmida no tampo liso, abriam a caixa, e ficavam a olhar o vapor tranquilo do chá, ainda demasiado quente, antes de se abrirem as portas ao público e de tudo na cidade se transformar em vozes e dinheiro, pão e circo.

Atravessei o bazar de uma ponta a outra, e dei várias voltas às bancas dos legumes, do pão, do queijo, como um girassol ainda preso aos limões daquela manhã, desviando-me de grandes sacos de plástico entrançado e mulheres de rabos enormes, que tomavam posse de quilos de maçãs e batatas, estrangulavam alcachofras e melões amarelos. Saí do outro lado incólume, sem ter aberto a carteira, sem ter discutido sequer um preço. Os gatos saltavam para dentro dos caixotes do lixo; havia tripas de peixe e restos de vísceras, flores velhas e sacos vazios. Decidi ir procurar os banhos.


version 1/s/cidades// @obvious, @obvioushp //chloe