Hammershøi – A liberdade


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Há um cheiro que me confirma que estou presa nas paredes e na iluminação artificial de manhãs invernosas de trabalho: a mistura de vários perfumes com hálitos de café, papel de fotocópias acabadas de tirar e, se há chuva, a nota oxigenada dos guarda-chuvas abertos perto da entrada. Podia ser aroma de café, que é bom, mas não: é hálito, são hálitos - senhor, são hálitos -, uma das maiores promiscuidades do mundo do trabalho. O alcatifado dos lugares e o ar condicionado regulado para calor excessivo ampliam a mescla de odores e potenciam a náusea.

Entre as paredes do trabalho conspiram-se as cidades, forjam-se e parasitam-se as cidades, e alguém dirá, numa manifestação de bom senso - há sempre alguém com bom senso - que não podíamos estar todos do lado de fora das paredes. E alguém dirá da rua que é fria porque não tem paredes. E às vezes é. Mas muitas vezes é só a rua e o ar é grande, o ar move-se. A rejeição dos espaços fechados no tempo frio e a consciência de serem uma dupla clausura - a das horas do dia e a dos meses até ao sol - fez-me ir preferindo viajar na Europa durante o Inverno. Gosto imensamente do frio e dos casacos quentes, gorros, cachecóis e luvas, todo o ritual de tirá-los ao entrar e voltar a vesti-los ao sair dos sítios, ter uma cidade disponível sob os pés, em frente aos olhos, ter tempo para descobrir, ter tempo para ter tempo. A chuva não me estraga o conforto, mas prefiro-a ausente porque, na queda, risca a lisura transparente do ar. Em Hammershøi há especialmente um momento em que adoro estar na rua. Entre as 9 e as 10, o centro, onde não há trânsito automóvel, parece ter sido abandonado por todos. Só encontro desocupados, como eu, poucos, que o frio faz hibernar os turistas, outra razão que me faz preferir ter férias de cidade nessa altura. Hammershøi esvazia-se entre as 9 e as 10 porque a primeira é a hora de entrada das pessoas no trabalho e a segunda é a hora de abertura do comércio e da restauração. Não há muitas excepções a esta regra e comprar um jornal ou tomar um café antes das dez é impossível, excepto em casa ou na estação. Nos trajectos principais até à estação, Hammershøi é arrumada e limpa, a nota dominante do tempo é a das horas presentes, o que se faz, o que se prepara, o que está quase: o pleno das pessoas, dos sons, da vida. Nas ruas paralelas às principais, nas encruzilhadas dos bares, o ar assemelha-se ao de um salão de baile abandonado às seis da manhã, depois de ter recebido uma banda de trezentos fumadores incorrigíveis, e Hammershøi é ontem, o que parou, a noite interrompida, aquilo que espera. Às vezes, manchas de sangue no chão falam de madrugadas violentas; procuro instintivamente o que não quero encontrar, o contorno a giz de um corpo caído, e sigo sem respostas. Compro o jornal, alimento-me de forma precária, guardo-me para uma mesa de esplanada. Em Hammershøi há esplanadas durante todo o ano e só é impossível frequentá-las se chover torrencialmente. Uma vez sentada, a roupa quente a transformar o frio em prazer, o ar livre a redimir-me de todos os hálitos de café, penso nos interiores, em quem está onde eu não gostaria de estar, no quanto do meu tempo não me pertence, nas horas todas da vida em que não vou poder caminhar do lado de fora das coisas, e absolvo a antiga concepção de liberdade que tinha a propriedade como medida: não, não é obsoleta, é actual e pesa, prende, impõe restrições ao movimento, fecha o mundo, fecha-nos no mundo.

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