Hammershøi – As pêras


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Em Hammershøi come-se mal. Mesmo as pessoas que comem peixe e legumes cobrem-nos com molhos em cuja preparação frequentemente entram a maionese ou o ketchup. É como se reconhecessem a importância desses alimentos, mas não consentissem nudez aos sabores. O melhor a que se pode aspirar é a um prato de salmão com – apenas – molho de manteiga e subtis notas de mostarda. Quase quase só peixe. Gordo. O azeite não existe.

No supermercado, paradoxalmente, grandes ilhas de bancadas dão destaque a frutas e legumes. Sobre uma bancada com salsa, coentros, manjericão, morangos, figos, tâmaras, pêras, uvas e laranjas, uma grande placa indica “PRODUTOS EXÓTICOS”. Fixo-me nas pêras. São grandes e de forma invariável, todas uniformemente douradas. Levanto uma, curvo-me: cheiro nenhum. Quase lisa, ao fim de alguns dias com a cidade por minha conta, tenta-me plano tolo, que ponho em prática: compro cinco pêras e vou comer um hambúrguer ao bar perto do hotel (tinha visto o Super Size Me na semana anterior e fui levada por um misto de curiosidade e atracção pelo abismo). Sinto fome uma hora depois, claro. Não percebo porque enfio eu estes barretes. Ou melhor, percebo, embora não saiba exactamente o que é que está na origem: por alguma razão, à medida que nos afastamos do Sul e a pólis prospera em urbanismo, ambiente, educação, saúde, garantias sociais, protecção no trabalho – que, sim, há um crescendo disto para Norte, embora nós, provincianos e orgulhosos de sermos servis, estejamos a copiar o pior que nos chega de outros lados –, os restaurantes normais vão desaparecendo. Tascas, então, nem pensar. Com restaurantes normais quero dizer aqueles estabelecimentos em que nos podemos sentar e pedir que nos tragam uma sopa, um prato de carne ou de peixe, uma salada, uma peça de fruta ou um doce, café, sem que tal corresponda à prestação de um extraordinário serviço de luxo. Por um lado, é o Mediterrâneo que fica para trás. Por outro lado ainda, é também e essencialmente o tempo, esse tempo dos calendários e das eras, o tempo que muda o som das vozes nas ruas para outra música, que muda os penteados, que periodicamente põe sapatos de verniz nos pés das meninas, para mais tarde as expor ao ridículo das fotografias, o mesmo tempo que nos faz avançar, sem possibilidade de paragem ou de recuo, em direcção à segurança branca do asséptico absoluto onde, estou certa, um dia seremos saudáveis e bonitos do princípio ao fim da vida, só posta em causa num único e derradeiro confronto. Lembro-me sempre do nojo que os contemporâneos do Selvagem, no "Admirável Mundo Novo" do Huxley, sentiam por ter aquele nascido das entranhas da mãe. Fome uma hora depois, dizia eu. Era previsível, por isso comprara pêras. Pêras de Hammershøi, fruto, esse sim, de rigoroso exotismo. Estou habituada a comer pêras sobre um prato, assistida por guardanapos absorventes, com as mangas arregaçadas e de, apesar de todos estes cuidados, acabar sempre com os pulsos pegajosos do sumo que sempre jorra a cada dentada, como se o fruto se esvaísse num sangue invisível que a custo contém, de tal forma abundante que nunca me parece possível que antes estivesse todo lá. No que respeita à aspereza, as pêras de Hammershøi cumprem o que se espera delas e até vão mais longe: sem serem duras, oferecem agradável resistência. Mas e o doce? Não têm. E o sumo? Não têm. São só ligeiramente húmidas. Temi ter tido azar na compra ou na época, mas a pequena averiguação que levei a cabo a seguir demonstrou-me serem aquelas as características das pêras de Hammershøi. Até hoje me pergunto como seriam os figos. Um dia descubro.


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