Hammershøi – Do sol e outras minudências


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Sei que estou em casa de outra pessoa quando a preparação do duche diário se atrasa na grande indecisão sobre o que vestir. Onde estão mesmo as roupas que não trouxe? Calço ténis ou botas? Uso a minha camisola preferida, que se amarrotou na viagem, ou uma indiferente sem vincos? E o cuidado com que me esgueiro do quarto que me foi reservado para a casa-de-banho. E a quantidade de vezes que volto atrás porque me esqueci de algo (de tudo, nunca consigo acordar em casa alheia e ir ligeirinha para o duche, levando tudo o que preciso). E toda a estranheza sobre o funcionamento das coisas mais simples que, de casa para casa, pode ser tão ligeiramente diferente.

Tudo isto é azáfama de não estar em minha casa; e, logo a seguir, no caso dos duches, a água quente a acordar-me de vez, a aquecer, a animar, a fazer desejar a rua, o dia, o movimento, a água quente na pele igual em qualquer lugar em que esteja. Uma decisão que vai sendo cada vez mais facilitada, à medida de o caos climatérico se instala, é a de usar ou não usar guarda-chuva. Em regra, em Hammershøi, um casaco com capuz garante a dignidade pedestre do comum mortal… na verdade, um saco de plástico na cabeça, fosse esteticamente decente, bastaria para lidar com os casos mais graves de chuva. Por vezes, em Hammershøi, tenho ficado em casa de amigos, num apartamento com paredes de tijolo pintadas de branco e uma planta esquisita. Ponho-me a imaginar que no princípio do século passado viviam ali duas numerosas famílias. O apartamento, num 2º andar ao qual se chega depois de subir uma estreitíssima escada em caracol que começa imediatamente a seguir à porta da rua – e que obriga a transportar malas e mochilas em equilíbrio sobre a cabeça, visto não haver espaço para elas ao lado do corpo –, consiste numa cozinha, numa casa-de-banho e em duas amplas divisões, quadradas, com cerca de 30 m2s cada uma, cada uma com a sua lareira – hoje, salamandras ocupam o lugar onde no passado se terá feito lume – e com o seu lavatório rectilíneo, de louça branca milimetricamente estalada. As divisões quadradas dão para um corredor, para o qual também convergem as portas de entrada do apartamento, a da cozinha e a da casa-de-banho. A casa-de-banho é mínima e oferece os serviços mínimos de duche e w.c.. Lavar os dentes ou pôr um creme na cara já não pode ser ali, que o lavatório é tão pequeno e fica de tal maneira metido na parede que a única acção que permite é a de lavar as mãos. A divisão que hoje serve de sala tem o respectivo lavatório num pequeno anexo cujas paredes se apresentam cobertas de estantes vazias. O antigo proprietário usou-o como arquivo livresco ou como pequeno escritório. Os meus amigos puseram lá um divã e usam-no como quarto de hóspedes. É lá que eu durmo e, às vezes, quando no embalo do sono me lembro da idade e das características da casa, me assusto com a possibilidade dos fantasmas, para logo a seguir adormecer. Em frente à porta do anexo está um sofá colocado na base de uma janela sem cortinas. É nele que me estendo a apanhar sol e a descansar de um passeio antes de partir para outro. Mesmo cheia de sol, porém, não consigo evitar uma insatisfação vaga mas constante: o ar, em Hammershøi, não deixa nunca de cheirar a frio, e o sol não parece fazer parte do ritmo dos nativos, desse balanço que os corpos levam pelas ruas, através do qual as cidades se retalham, repetem, multiplicam em toda a sua gente, são gente. A minha relação com Hammershøi é, pois, bizarra: a cidade é minha e eu pertenço-lhe, mas os indígenas não são, não poderiam ser, da minha tribo. E mesmo reconhecendo toda a adaptabilidade que é a minha, sabendo que poderia viver em qualquer lugar e gostar dos dias - para o bom e para o mau, também viveria nesse buraco camusiano escavado no solo que apenas permite girar os olhos em direcção ao céu -, sei que Hammershøi, belíssima, não chega nunca aos calcanhares do amontoado caótico e luminoso onde a minha casa existe agarrada ao chão pela terra, agarrada ao fogo. Não deixo no entanto de invejar certos pormenores: como haver inúmeras lojas de mobiliário giro e sólido muito barato. Giro porque com cores, alegre, quase infantil, sólido porque durável, com o peso exacto, feito dos materiais exactos - em Lisboa pedem-me a alminha e dois tostões por qualquer peça de mobiliário que não faça chorar as pedras da calçada, nem se parta daí a três dias. Aqui numa loja perto de casa está uma cómoda linda de morrer, vermelha como as papoilas, pela qual pedem quinhentos euros: uma coisa comprada na Feira da Ladra, aposto, pintada de vermelho (e mal, que tem as costas cheias de manchas) e com puxadores novos... um roubo. Invejo a decência mobiliária de Hammershøi. Noutra escala da existência: perto da casa dos meus amigos há uma praceta com palco permanentemente montado, que os moradores usam para as celebrações que lhes dão na real gana e, desde logo e porque sim, que usam todas as sextas-feiras à tarde para a música. Não têm uma banda, não fazem um espectáculo, mas também não se trata de um ajuntamento autista. Não é ensaio e nunca deixa de ser ensaio: é uma rotina musical pública, ordenada, que chegada aos ouvidos faz sentido e os faz felizes (aos ouvidos, aos moradores, aos ouvidos). Uns tocam, outros ouvem. E as esplanadas em volta enchem-se de gente que gasta o resto do dia, o resto da luz, e ouve música. Ainda assim, o sol de Hammershøi lembra-me sempre um pouco as réplicas do mundo que o Dave Bowman do Clarke, no 2001, acabado de descer (ou de subir?) do monólito de Japetus, encontra no quarto. Parece não haver nada atrás. Não se cola à pele. Ilumina-a e não é.


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