Hammershøi – É já ali


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Hammershoi Romance

De cidade indesejada e que me foi imposta, Hammershøi depressa se transformou numa das cidades da minha vida. Dei por quase todos os momentos em que se insinuou, tão inesperados e incríveis foram, e em muitos deles poderia ter suspeitado da minha sanidade mental – a cidade parecia, de forma consciente, interagir, mostrar-se – se não soubesse, mal ou bem, que é na ilusão da personificação que amamos, ou não, as cidades.

Comecei a regressar mesmo sem trabalho e da escadaria do terraço de Gemma tenho feito, se não chove, a esplanada preferida para a leitura do jornal do dia, que prendo ao chão com a ajuda de seis pedras pequenas e pesadas, levantando-as e redistribuindo-as à medida que avanço, sempre da última para a primeira página. Na sinfonia insana de verdes que é a floresta, Gemma é a minha pausa, o castanho e o cinzento preparando-me para a intensidade colorida de cada dia.

A floresta omnipresente seria, por si só, característica bastante para me ligar à cidade de forma insondável, mas em Hammershøi agrada-me também o facto de conseguir, sem nada ter feito para isso, ser invisível. Ninguém parece dar por mim. Melhor: ninguém me estranha a ler o jornal no terraço da Gemma. E se me apetecer sentar sob uma das árvores, não tenho de fingir ler ou fotografar. Outras pessoas fazem as mesmas coisas. E mais um pormenor simpático: quando me sento numa das esplanadas, se as árvores choveram flores para a toalha de mesa, quem vier atender-me deixa ficar as flores.

A somar à floresta, ao Carvalho de Lung, à Torre, à Praça de Gemma, Hammershøi tem, dignos de nota, bizarros tesouros e comuns relíquias citadinas - museu de arte antiga e museu de arte contemporânea; estação de correios nova e a velha; uma rua só com galerias de arte; inúmeras esplanadas sob as árvores e sob potenciais cagadelas de pássaro; a repetição de objectos comunitários e infra-estruturas revestidos com lápis-lazúli ou simplesmente pintados com tinta da mesma cor; um lago, de águas negras, que parece nascer nas fundações do edifício da câmara municipal e que completamente o circunda, transformando-o em ilha; o mar verde e cinzento, escuro e luminoso, opaco e transparente, tempestuoso, que se infiltra mesmo nas noites mais amenas.

Acordar em Hammershøi parece-se ao acordar em alto mar. A madrugada espalha intensa maresia, nem os edifícios que com maior rigor foram protegidos dos elementos escapam. Farto-me de sonhar com uma floresta inundada, em que a minha cama é um colchão insuflável.

Regresso muito pelo prazer de andar a pé. Lisboa, ao contrário do que dizem más-línguas mais ou menos inertes, faz-se muito bem a pé, não apesar das colinas, mas por causa das colinas, visto estas introduzirem variações na dificuldade dos passeios e, continuamente, nos submeterem a testes de resistência… calcula-se bem o estado das pernas. Em Hammershøi, pelo contrário, lida-se com um solo plano e sem surpresas, perigoso de tão aparentemente fácil, que só dá sinal quando as pernas perdem de repente a flexibilidade, começando a responder com dolorosa rigidez, como peças de madeira lançadas ao chão. Daí até ao colapso das forças para esse dia, é um ápice.

Em Hammershøi, os passeios fazem-se atrás das árvores. O município mantém uma lista, de actualização anual, com todas as árvores que vão sendo declaradas património cultural e, com a mesma periodicidade, é lançado um mapa que as assinala e que permite passear em busca dos milenares gigantes. São passeios de ir só ali, já que as árvores, isoladas, nunca distam muito umas das outras, embora juntas dêem diversas vezes a volta à cidade. Pode-se ir só ali e andar vinte quilómetros sem perceber.


version 1/s/cidades// @obvious, @obvioushp //sao reino