Hammershøi – Nairadom


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É uma estátua com cerca de três metros de altura. Mostra uma mulher sentada a tricotar uma meia. A meia dá-lhe a volta à saia várias vezes, alargando-se primeiro e depois subindo, ameaçando envolvê-la. A meia é interminável e, se o não é na estátua, foi interminável na mulher. A mulher chama-se Cassandra. Cassandra é antiga e presente. Cassandra morreu mas é.

Cassandra de pedra branca fita-nos, curvada, eternamente a tricotar, nas ruínas da Catedral de Nairadom, e é a primeira e principal figura da exposição permanente do Museu de Nairadom, a mais significativa, embora os responsáveis tenham tido a sensibilidade de omitir placas, de não a tratar como peça - a informação é-nos facultada em desdobrável, na recepção do museu propriamente dito, quando de livre vontade aceitámos sair do sonho.

Conta-se que num longínquo Inverno que durou três anos, três anos de chuva, neve, vento cortante, três anos sem sol, quando a cidade foi assolada por uma série de doenças relacionadas com o frio e a má nutrição, Cassandra, então com treze anos, começou a tricotar meias e camisolas para todas as crianças da sua rua. A notícia terá alastrado e depressa Cassandra tricotava para toda a cidade. De graça. Por generosidade, dizem uns, por loucura ou por soberba, dizem outros, polémica de café que não é mais que a procura de uma auto-justificação por parte daqueles que se enredam nela, consoante ainda se esperam, ou já não, capazes de dar.

O tricot de Cassandra salvou vidas e, acarinhada, a sua lenda é, a par da aquática tragédia que marca a origem da cidade, uma das mais férteis fontes de inspiração da população. E é ela que se senta, generosa obsessão de pedra, em Nairadom, e a meia que a circunda, enorme, tem tanto de metáfora como de exacta ironia: com oitenta e um anos, quando fazia um par de meias para um dos bisnetos, Cassandra perdeu a noção do tempo e do mundo. Não que se tenha esquecido do tamanho correcto do canudo de uma meia, menos ainda da agitação ordenada das agulhas. Cassandra esqueceu como se fazia o calcanhar, essa curva engenhosa em que a linha se adensa e a meia vira a caminho do pé. Por não se lembrar, nunca mais parou. Quando morreu, meses depois, tinha feito um canudo de dez quilómetros.

Nairadom, que receberia a sua estátua, foi construída totalmente com tijolos de barro e abandonada trezentos anos depois, quando as paredes mostraram pertencer mais à fertilidade plana da terra do que ao aprumo circunspecto dos homens. Os eclesiásticos continuaram a guardar as chaves e a tratar a madeira das portas. Com zelo. Em vão. Anos volvidos, a vegetação tinha conquistado as paredes e, no interior da catedral, as árvores rasgaram os tectos, abrindo passagem em direcção às nuvens. Com a catedral quase completamente restituída ao sagrado, os eclesiásticos, pragmáticos, doaram ao município a ruína e os terrenos adjacentes.

O município assumiu a conquista do espaço pela natureza e quando foi necessário construir edifício que albergasse a colecção de arte antiga, projectou-o para o fundo da propriedade. Nairadom surgiu então como portal de acesso aos cuidados jardins do museu. Cassandra está sentada na área correspondente à nave central da antiga catedral, rodeada de vegetação espontânea, flores, arbustos, ninhos e pássaros, insectos e árvores. Com o tempo, parece-se cada vez mais com o que a rodeia, o musgo macio a nascer da humidade da pedra.

Não nos enganemos, porém: não há aqui negligência. Há vontade racionalmente dirigida a um fim, o de fundir Cassandra, que continuou Hammershøi, e a floresta, que gerou a cidade, num mesmo tempo e lugar. Como se a pedra, tornando-se verde entre os pássaros, se aproximasse mais do que é vulnerável e vivo e a história que representa fosse menos ausente da respiração presente do mundo. Por esta razão, a estátua é atentamente vigiada, amiúde limpos os detalhes mais frágeis da pedra e, de quatro em quatro anos, a sua alvura totalmente recuperada. Depois, lentamente, as estações levam Cassandra de regresso à floresta.

De Cassandra e Nairadom eu já conhecia a existência antes de Hammershøi. E aqui entra a minha natural distracção: tendo visto a estátua e lido a respeito na Internet, a última coisa a que prestei atenção foi ao nome da cidade. É andar à toa, é, não é algo de que me orgulhe tanto assim. Por outro lado, a impossibilidade de antecipação amplifica a possibilidade da maravilha, que também se faz do inesperado.

Cassandra nas ruínas verdes de Nairadom parece um fantasma. Logo logo não se percebe por que é que para aceder a um edifício sólido e luxuoso, como o do museu, se tem de transpor uma ruína. É enquanto caminhamos sobre o chão irregular e desnivelado de Nairadom, que sentimos, subitamente, que não estamos sós. Um arrepio à altura dos ombros basta, um instante, para seguir ao encontro de Cassandra. É uma estátua absolutamente bela, mais ainda na vulnerabilidade humana da ruína que a envolve. Que somos feito disso, diz. De teimosia e de fragilidade. De pedra e de pássaros. Do que fica, do que nasce, do que regressa.


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