Manuel ceguinho em cima dum burrinho


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Também o dia parecia novo. O Verão queria começar, e o calor era uma agitação involuntária no ar, nas pessoas, no movimento dos carros e no verde novo das árvores. Pedi um chá numa esplanada em frente ao rio, a tentar acomodar-me à minha nova pele, a cheirar-me discretamente para ter a certeza de que era mesmo eu. Não tinha nada melhor para fazer, e é assim mesmo que gosto de estar nas cidades - estando apenas, tentando adivinhar a vida das pessoas que passam, contando quantas atravessam a ponte para o outro lado, quantas param à espera, a tomar uma decisão sobre o melhor caminho, a meter a mão ao bolso para terem a certeza de que não se esqueceram da chave.

Alguém me chamou, e demorei até perceber que era o meu nome. O Kamil sentou-se ao meu lado com um grande sorriso. Enquanto esperava o chá, olhou em volta e comentou que eu era a única mulher na esplanada. Eu ri-me; de facto, vinha habituada a cidades maiores e mais indiferentes à questão do género, como Istambul e Edirne. Não era mal-vinda, mas reparavam.

E que fazia ele? Endireitou-se, meio atrapalhado. Ia falar com umas pessoas, que circunscreveu num gesto de prestidigitador tímido. Percebi que o mundo conhecido acabava ali, e não insisti. Mas, como toda a gente, ele tinha vontade de fazer confidências a alguém de fora da sua cidade, e avançou. Ia ter com uma cigana que lia a sina. Eu não me ri, o Kamil continuou. Tinha pensado sair do país, procurar trabalho na Europa, mas queria saber. Por isso ia falar com a cigana. Ali, trabalhava no café durante o dia, e ajudava um primo que tinha uma oficina, aos Sábados e Domingos, mas isso não lhe dava para, um dia, sustentar uma família. Como eu continuava sem me rir, convidou-me a ir também.

A cigana vivia num rés-do-chão à sombra da torre bizantina, que se erguia uns bons doze metros até terminar numa plataforma meio arruinada. O bairro começava nas traseiras da torre, e dava para perceber que ali se marcava uma das fronteiras invisíveis da cidade - pela poeira, pelas caras, pela maneira como as crianças jogavam à bola no meio de nada. A cigana tinha cinquenta e muitos anos, era gorda, com enormes olhos escuros que brilhavam e se agitavam como peixes na pele cor de canela. A saia rodada, cheia de esconderijos, terminava numa barra de flores. O Kamil sentou-se com ela a uma mesa pequena, e eu fiquei ao lado, num canapé, à espera.

A mulher pegou-lhe na mão - e pela primeira vez, à luz forte do candeeiro de mesa, reparei como era uma mão extraordinária, com uns dedos de pianista, compridos e muito direitos. Conversaram durante uns quinze minutos. O Kamil estava nervoso, e eu começava a imaginar que histórias lhe contaria a mulher sobre o futuro. Finalmente, ela fez um longo 'Aaaaahhhh!' seguido de uma palavra que repetiu umas cinco vezes, ele respondeu com um 'Ah-haaa!' satisfeito e terminaram a sessão. O Kamil levantou-se e apontou-me a cadeira. E eu, que nunca tinha sabido nada do meu futuro, muito menos que um dia viria a Fava, aceitei.

Em vez de me ler a palma, a mulher apertou-me as mãos nas suas; depois, pousou sobre a mesa um punhado de botões de papoila. O Kamil, que servia de intérprete, explicou-me que tinha de escolher. Olhei para os botões ovais, acabados de colher, cobertos de penugem. Peguei num. A mulher fez-me sinal para que o abrisse, e eu hesitei - não por medo das suas profecias, mas porque, desde pequena, nas minhas brincadeiras, sentia a angústia do gesto irreversível de abrir um botão de papoila. Eu sabia tudo - ia pressionar a cápsula mole, medir-lhe a resistência, e com um toque da unha ia rasgar a fina bainha que a dividia em metades. E a esse primeiro golpe veria, lá dentro, a confusão íntima das pétalas, o vermelho profundo, embrulhado sobre si mesmo, e depois, ao puxar, devagar, as pétalas iam sair, amarrotadas, finas e suaves como a seda e com o mesmo brilho mate e escamoso que parecia feito de milhões de grãos minúsculos tocados pela luz da manhã.

Era de toda esta beleza que eu podia desfrutar ao abrir a cápsula - mas não conseguia deixar de pensar sempre, sempre, nos instantes antes de fazê-lo, que nunca mais seria capaz de arrumar as pétalas de novo dentro do botão, que o meu gesto e aquele prazer eram o princípio e o fim. Valia a pena explicar isto a uma mulher que vivia de revelar o futuro? Achei que não, e abri o botão, derramando sobre a mesa uma mancha vermelho vivo que a mulher olhou fixamente durante uns segundos. E suspirou.

(O Kamil ia traduzindo.)

Vais fazer uma longa viagem. Nessa viagem vais encontrar um homem num burro. Reparei que o Kamil assumia uma pose muito garbosa para um futuro daqueles; seria de facto um burro? Não seria um cavalo?, sugeri. Sim!, assentiu ele, um cavalo, um homem a cavalo! Esse homem anda à tua procura há muitos anos; atravessou o mar à tua procura, vem duma cidade do outro lado do mundo. E como tinha ele atravessado o mar?, perguntei. A cigana ouviu o Kamil repetir-lhe a pergunta e calou-se; os dois peixes pararam a olhar-me, avaliadores. Este homem pode atravessar por dentro do mar, explicou, com um gesto ondulante e subaquático. O homem traz-te um prazer muito valioso. Um prazer? Era esta a tradução do Kamil; o que quer que o homem me trouxesse, era difícil saber, mas começava a gostar daquela versão do meu futuro governada por equívocos de linguagem. Mas vejo um perigo, disse ela, puxando devagar uma das pétalas, Tens de ter cuidado com frigoríficos. Entendido. Posso fazer perguntas? Podia. Consegue ver tigres no meu futuro? O Kamil pediu-me que repetisse e confirmou, com uma mímica eficaz de quem dormira anos naqueles cobertores, que eu queria mesmo dizer tigres. Consegui perceber, por entre o mar confuso que o turco era para mim, uma única palavra, kaplan, dita devagar como para evitar dúvidas na cigana. A mulher olhou-me de novo, depois olhou a papoila, que já murchava. Não. Não tigres. Como se quisesse mudar o campo de jogo, fez-me abrir mais um botão de papoila. Em vez de vermelhas, as pétalas desta eram de um rosa pálido, incompleto. O Kamil traduziu-me, com a satisfação de um portador de boas novas: vais ter cinco filhos. E como se de comum acordo, como se o mundo terminasse ali, os dois levantaram-se ao mesmo tempo, a mulher recolheu os botões para uma taça de plástico, o Kamil pagou ambas as consultas, apesar do meu protesto, e saímos.

E o teu futuro, perguntei eu? Ele encolheu os ombros. Vem aí uma coisa boa, e é aqui em Fava, disse, como se fosse um segredo. Não sei a que se referia; quanto a mim, pensei logo no almoço.


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