Me recuso a agir como o crioulo do Grapette

Quantos cartões postais serão necessários pra descrever minhas praias legendárias? Botafogo, Leblon, Copacabana, Ipanema... as fotografias são falas mudas e compreensíveis que fazem cenário nessa frieza colorida que se estende sobre a Zona Sul. Evito os pudores pós-modernos só porque quero as conversas alheias, favela, praia, maresia, Porsche. Que seja auto-exilada nessas ruas míticas onde não se permite ser o outro.


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Mas posso tentar, porque tem parecido ser de extrema importância descrever com correção. Ainda assim insisto em dizer que o princípio de tudo não está em tijolos, em asfalto ou cimento - é verdade que só se vende uma única marca de cimento no Rio de Janeiro?

Eu passo em frente à Biblioteca Nacional; a Cinelândia logo ali em frente ao artesanato nas escadas do Teatro Municipal. Que e quantas palavras quem escreve sobre aqui necessita pra refazer as retas, as curvas, os arremates desses edifícios? Como as minhas vírgulas poderiam traçar as descrições desenhadas antes no plano? Nada me diz como, mas ainda que pudesse ser engenharia poética, seria inútil. Ergue-se uma parede imensa por onde se passa, o sol bate e é mesmo a sombra dela - que é toda gente - que se estica até o topo do coreto, da carrocinha de amendoim caramelado, do Cine Odeon, do Passeio Público. É a sombra das gentes que se projetam imensas, até o topo. Gente, verde e monóxido de carbono.

Trajeto do dia:

1. Central do Brasil

2. Avenida Rio Branco

3. Cinelândia

4. Aterro do Flamengo

5. Enseada de Botafogo

6. Shopping Rio Sul

7. Praia de Botafogo

8. Praia de Copacabana

9. Forte de Copacabana

10. Rua Joaquim Nabuco

11. Praia de Ipanema

12. Praia do Leblon

13. Praça Antero de Quental

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Por conta daquelas novelas do Manoel Carlos, só mesmo os assíduos frequentadores, moradores ou gringos são capazes de aportar aqui na calçada sem começar a cantarolar meios compassos de "quiet night of quiet stars", um dos temas. Sempre me lembro, às vezes não canto mais. Não passa nunca é o encanto panorâmico frente a um lugar tão lindo. Não passa nunca a sensação de exílio.

Minha idéia ali no calçadão do Leblon (posto 11) era aproveitar o restinho de sol que, por causa do horário de verão, se punha só lá pelas sete horas, e tentar tirar a marca bizarra que o vestido havia feito no final de semana: torrando ao som do Monobloco, caipirinha congelada num saquinho.

Por conta de umas pessoalidades, me faço estar ali duas vezes por semana, e já há tantos meses que fico admirada dessa ser a primeira vez que consigo me ajeitar pra algum tempo na areia, e então pus os fones de ouvido e pedi a Nina Simone que me cantasse algo. A realidade é tão caótica e, não minto, me soa sempre tão triste que ao cristão custa crer que está deitado sobre o tecido azul, ladeado por uma garrafa de água fresca, céu claro, pouca roupa, mar de poderes serenos, sob um sol morno que a brisa entrecorta sem sentido aparente. Dormi no embalo da descrença.

Não demorou muito. Um pouco tempo depois, no meu lado direito, o sol ia se escondendo atrás das duas pontas do Morro Dois Irmãos: enfeites ícone. Os raios acabavam por se dividir em dois também, batendo nas ondas que faziam subir entre elas uma nuvem de gotinhas. Respirei fundo até que o salgado me ardesse a garganta, bem pensativa, esse é o cheiro do lugar de onde eu vim e eu nem sei onde fica. Daí me vesti à pressas sem ousar olhar pros lados: de um, uma loira deprimente, do outro, duas morenas deprimentes. O que acontece ali naquela praia? Uma geração de super mulheres que desconhece o que é que seja celulite, estrias, cabelos ressecados? Elas também se levantaram, o que achei uma afronta.

Que pernas! Olhei. Dane-se. Lembrei do Nelson Rodrigues: me recuso a agir como o crioulo do Grapette! Contive à custo a necessidade do riso lembrando desse do Maldito e do vendedor de refrigerantes Grapette que, tendo uma daquelas deidades em biquíni caminhando à sua frente, ignorava.

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Corri andando pela calçada-orla porque em Ipanema ainda havia sol, com certeza e eu ia apostar corrida com ele. Não sei se alguém já reparou, mas já viram que na orla não há indicação de pontos de ônibus? Imagino que eles sempre pararam próximos às placas de "CUIDADO" da ciclovia, mas vamos em frente porque não pude também pensar em certos detalhes da minha criação.

Estranho como não é cinza. Em dias de chuva, tudo é cinza e azul (como na música), verde às vezes tão novo e diferente na surpresa da fuligem com a qual eu já me habituei... ali, nas pedras portuguesas bem colocadas, as cores, as pessoas, as conversas, as cervejas, os espaços, são tão infinitos que como vou contar do que vi? Só há espaço para as fotografias, que podem captar pela rapidez os detalhes em quadros. A burguesia pós-moderna cria esferas nada corporativas, todas ensimesmadas, espaços únicos e individuais onde, aparentemente, se apetecer sentar sob uma das árvores, não se há de fingir ler ou fotografar.

Mas eu me recuso a agir como o crioulo do Grapette e prestei bem atenção na menina que havia parado o homem que passeava com um pastor alemão imenso: Lobo. Os cachos milimetricamente organizados sobre o pescoço, negra, blusa rosa uns dois números abaixo do tamanho, mas antes que o dono do cão respondesse "pode pôr a mão sim, ele não morde" ela já havia enterrado os dedos na pelagem da cabeça. Conversava com ele aos oito anos e Lobo prestou uma satisfeita audiência às explicações que ela lhe dava sobre sua beleza. Por dentro eu tremia, a mãe ria e dizia que ela adorava cachorros. A menina tivera 20 cães (isso ela gritou com orgulho) mas tiveram de doar todos por conta da mudança. Internamente eu me desmanchava de medo que Lobo fosse mau.

Encontro o exílio, enfim: a menina e a mãe não são daqui, Lobo e seu dono são daqui e nada indica que se querem suspensas as distinções entre os que são de dentro e os de fora. Aquela calçada não é evento do índio gordo e antropófago (São Sebastião do Rio de Janeiro) e nem é que deveria ser. Vivências não-escritas, com força de lei. Mas o que faço se prefiro a leve supressão das identidades, o desaparecer no coletivo? Os forasteiros sociais não são mal-vindos, tampouco são convidados a ficar porque esse é o funcionamento da roda. Daí andei tanto que cheguei a Copacabana, e me interessa Copacabana como chão de passar micro-mundos inteiros.

Eram mais de oito horas da noite quando me vi numa roda de pessoas aplaudindo um homem que jogava futebol com uma bolinha de papel de meio centímetro. Camisa azul, os austríacos vibravam, eu vibrava, ele jogava a tal bola pro alto e cabeceava. A certa altura me senti num circo de pulgas, havia mesmo uma bolinha? Tinha, tinha! Ele fez embaixadinhas, o vendedor de refrigerantes se acabava de rir dizendo que ele devia parar de enganar os turistas, não havia bola nenhuma ali. Ele a jogou pro alto e a segurou entre os dentes pros aplausos frenéticos. Pensei que era triste não poder nunca contar daquilo a ninguém, não vai haver mais como conjurar o futebol de pulgas, até eu já me esquecia. Num movimento natural, me afastei de tudo e de mim; fiz sinal para o ônibus e só não voltei pra casa porque nunca mesmo tive uma, sempre quis de verdade foi morar em gente. Indigente.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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