O mercado popular num dia qualquer

Segundo o Ministério Público Estadual, que acompanha as ações da Delegacia Antipirataria, existem 1.200 inquéritos em curso sobre a venda de produtos ilegais por camelôs. A maioria envolve o camelódromo da Rua Uruguaiana. O camelódromo foi criado para tentar organizar o comércio ambulante da cidade, mas, de acordo com a polícia, eles passaram a ser centros de distribuição de mercadorias falsificadas e contrabandeadas.


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Ouvi a notícia no rádio, a notícia daquele prédio antigo que desabou na esquina da Rua Regente Feijó em uma voltas para casa: só ensejos da madrugada, não fim de fato, nem reinício, nem chegada. Nenhum notícia de mortos, 9 feridos,explodiu o botijão de gás sobre uma fábrica de bijuterias e recomendavam aos motoristas que evitassem o Centro. Ontem, passando por lá, vi de longe o prédio sem os andares superiores e um monte de tijolos e paredes chamuscadas, toldos. Aquele farelo de concreto media lá mais de cem anos, mas sei que não é por isso que agora a cena parece insólita; como conceber pausas na convulsão desse lugar?

A Avenida Presidente Castelo Branco, em Vila Isabel não guarda muitas diferenças com as outras vias expressas da cidade quando chegamos aos 40º-sem-previsão-de-chuva. Gosto de vê-la (a Rua, a Mangueira) do metrô que segue ali junto, rente e paralelo, pela superfície; mas não sei porque subi a rampa e, ao invés de dobrar a esquerda e seguir pela passarela que sobrevoa a avenida, indo parar diretamente na roleta, fui pra esquerda em direção ao estádio do Maracanã. Não entendo. Isso às vezes me acontece, mas não importa, olhei por cima do ombro e me descobri sem condições psicológicas de voltar tudo no sol mais incrivelmente quente do ano que assava o asfalto mais incrivelmente quente do ano.

Decidi, pela decisão das insanidades cotidianas, contornar o estádio como se fosse um andarilho torto, um Raskólhnikov, porque os pés vão levando, os olhos vão vendo por onde, mas a mente foi tirar um cochilo depois do meio-dia. Mendigos, urina, em baixo das árvores e escuro estranho já que estamos no urbano. Era uma rua inexistente, essa que vou agora; preferível não existir como todas as outras, mas nada lhe tira os contrastes de luz e sombra, nem os carros jogando fumaça sobre as roupas que eles (os moradores) estão lavando num balde em cima das pedras - ela começa a existir sozinha. Mas já nem sei o que são essas palavras aqui, era esse o assunto? Ficou tudo tão confuso, como daquela vez em que sentei no banco do ônibus e, do lado, o pai abraçava com todo seu dois metros inteiros de África, camisa de time e voz morna de dilacerar: Tudo de alegrias e de tristezas conheci / Coisas do amor e do sofrer, eu já senti / Nada me transforma a alegria de viver / Ver a noite vir e sorrir, ao sol nascer. Depois levantou e segurou a mão do menino, ergueu, todo transformado, um: Ô capitão, Uruguaiana aí por favor. Corri e desci atrás deles desabalada e pra isso também não tenho resposta sobre ações. Eles sumiram nom eio das coisas/pessoas e, na verdade, a gente saltou foi na direção da Rua dos Andradas que fica no quarteirão anterior da Rua Uruguaia.

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Se formos atentos aos usos e costumes do vernáculo-gíria-cínica, "ô capitão, Uruguaiana aí" quer dizer que se quer ficar, tão perto quanto o trânsito da Avenida P** permitir, do Mercado Popular da Uruguaiana - consagrado mesmo é o nome Camelódromo. De batismo.

Lembro que assisti à notícia pela TV: incêndio de grandes proporções atinge camelódromo na Uruguaiana, assim, bem sensacionalista. Era um desses feriados que mais parecem fendas de suspensão temporal, esses que começam na quinta-feira e terminam na terça? Então, era desses, e mais de 200 boxes do Mercado pegaram fogo, e os bombeiros mal conseguiam abrir os hidrantes, o os celulares brotaram do chão gravando e fotografando tudo e o prefeito disse no blog dele que foi a máfia chinesa. Muitas pessoas ficaram chateadas com a declaração, outras foram soltas depois de presas e depois presas novamente. Por onde eu passei já estava reconstruído e o alemão dizia à namorada que ela devia levar o vestido marrom claro.

Entrei ali pelo labirinto. 1600 boxes/lojas organizados numa área de (pausa para procurar no Google) 3 mil metros quadrados e cobertos com um indefectível toldo azul que se estende até nem se consegue alcançar, até que alcança. A idéia minha era comprar um par de óculos que substituísse os meus perdidos. A modalidade não é nova: você compra o par na Uruguaiana, leva numa ótica, eles tiram as lentes que estavam e colocam lá a do grau correto. A coisa só não funciona pra quem tem pudor de usar óculos de plástico. Pudor até tenho, mas não tenho é dinheiro, por isso paguei dérreal neste e fiquei satisfeita, pronta para desbravar as últimas novidades no ramo do mercado informal e do contrabando.

Sonhei com as câmeras fotográficas, mas o vendedor mal me via. Penso que qualquer mulher pode frequentar o Mercado Popular da Uruguaiana de top-less porque não haveria audiência masculina. O vendedor me virou as costas entediado e foi para o outro canto do box onde uns quinze rapazes se acotovelavam para ver quem seria atendido primeiro no lugar de desbloqueio de iPhones. Hora do almoço e, com algum tempo sobrando, pode-se comprar um saco de pipocas e apreciar o espetáculo (nota: os executivos juniores de gravata e mochila são como entidades; descubre-se que nem só de belas bundas alimenta-se a cidade). Claro, também há a ESPM em televisores de plasma com intervalos para vídeos de luta livre e shows de hip-hop. Poucas coisas são tão encantadoras.

Do lado de fora um homem gritava LANÇAMENTO, CAÇADOR DE PIPAS!! com uma clareza fonética tão potente que deturpava o que dizia o outro, alguns metros à frente: RAMBO QUATRO. Foi assim que "Tropa de Elite" deu no que deu. Os policiais militares rolavam pela calçada reclamando do calor, cacetetes na cintura. Esperei um deles comprar uma água pra pedir eu também a minha no moço do isopor. Mais longe, à esquerda da porta de entrada do mercado, a música protestante, em ritmo de forró, era: E quem falar mal do irmão/ Vai ser comido de bicho; não sei exatamente o que eles queriam dizer com isso, mas imagino que tenha a ver com aquelas camisas camufladas escritas EXÉRCITO DE JESUS. Gostava mais do Gentileza.

Seria bom se tivesse podido ficado até mais tarde, tem lá uma carrocinha que vende espetos de camarão surreais, fora as lonas que se estendem no chão ao longo da Rua Uruguaiana - passam bem poucos carros - pra vender DVDs de shows raros e CDs mais raros ainda, remasterizações que nem foram lançadas aqui, originais, que nem o prefeito deve saber como é que chega. Roupas, tênis "Nike", bijuterias, "Ray Ban", cinto prateado, artesanato, toalhas de mesa, adaptadores PS1/PS2, wii's, biscoitos, computadores. Nem bem dei por mim. Passei numa papelaria e comprei a sacola feita com pôsteres de filme. Coloquei meu documento da Universidade e estranhei estar tão absurdamente feliz com aqueles papeis que diziam: você vai ficar mais um ano lendo documentos de mil oitocentos e guaraná de rolha. Me despedi da Uruguaiana entrando pela Rua do Olvidor, direção ao mar. Ali era a pressa do cansaço, os quereres de ir pra casa. O terminal das barcas cheio, não ia demorar a saída. Pensei no silêncio e já me acostumei com o som da voz muda de todos os ruídos, com o cheiro do cinza caos. A água da Baía é suja mesmo, mas aqui raios de sol saem da merda. A China Shipping empilhou containers no porto e o dia acabou em breves horas bestas.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cidades// @obvious, @obvioushp //Priscilla santos