O grande fogo dos céus



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De volta à praça, agora cheia de gente - rapazes de motoreta e gel no cabelo, o meio perfil das raparigas sentadas num muro, homens a dançar e a abraçarem-se, mesmo antes de a banda convidada começar a tocar - uma dança e um abraço como um ritual de luta a terminar em acasalamento. Os músicos tinham-se sentado no banco corrido de uma tenda de comida, e bebiam chá por entre os vapores do grande panelão. Ao fundo, perto da entrada para a ponte, um cartaz gigantesco com as imagens dos vencedores de Kirkpinar. As crianças corriam de e para sítio nenhum, um pedaço de bolo amassado na mão direita, e por vezes deixavam-se cair para dentro das saias das mães como quem se atira sobre um colchão. E recomeçavam.

Para minha surpresa, encontrei o Nurettin numa das bancas, a encher tigelas de sopa de lentilhas. Fez-me sinal para que me aproximasse, e explicou-me que fazia umas horas num restaurante, à noite, e agora ali estava. Uma prima dele fazia parte do grupo que eu tinha acabado de ver actuar no teatro. Assobiou ao cão e atirou-lhe um pedaço de pão duro, que ele se sentou a roer demoradamente aos meus pés.

A mulher ao meu lado sorvia a sopa com requinte infantil. Eu tinha adiado a oferta do Nurettin para mais tarde, para depois do fogo de artifício; gostava da ideia de uma sopa no fim da festa, como os petiscos obscuros de fim de madrugada em Lisboa. Os músicos tinham acabado o chá e atacavam o primeiro tema da noite; e ao verso inicial, cantado com uma alegria intacta, arrancada às pedras por um violinista escuro e franzino, passou a correr à minha frente um homem com físico de Sancho Pança, num passo de insecto gordo que lhe projectava para a frente o corpo e o espírito, a equilibrar na palma da mão direita, miraculosamente, como um acrobata de circo, um prato com um enorme naco de carne e gordura. Passou, e desapareceu no meio do cardume que se apertara em torno do palco, numa agitação que pequenos grupos de mulheres iam suavizando do lado exterior. Os rapazes mais perto de mim entraram em alvoroço por causa de duas raparigas de calças justas e umbigo a céu aberto. As raparigas pararam entre as outras mulheres, e ao longe vi umas unhas cor de alfazema a carregar freneticamente as teclas do telemóvel. Passado um minuto, dois rapazes juntaram-se a elas, e os meus vizinhos voltaram a afagar ternamente os bancos das motoretas, cabisbaixos.

Ainda não tinha passado meia hora quando começaram a ouvir-se as primeiras explosões, e um rasto de areia brilhante cruzou o céu na direcção de Edirne. Ouviu-se um grande 'Aaaahhhhh!...', e a cidade caiu como sob um sono de cem anos: os dançarinos desfizeram os passos, as crianças estacaram no meio da praça, as mulheres deixaram cair as mãos, os cozinheiros pousaram facas e frigideiras, os músicos baixaram os instrumentos, e só o fogo das bancas de comida ainda se agitava, como uma réplica domesticada do grande desvario de cores e fumo que riscava o céu de um lado a outro. O cão estava encostado a mim, de orelhas baixas, e eu quase sustive a respiração com medo de quebrar o feitiço.

Ocorreu-me, naqueles momentos, que podia ser a personagem tresmalhada de outra história qualquer, a intrusa, única ainda desperta na cidade imóvel, uma cidade que não era a minha, um transe que me era recusado, a passar entre as pessoas como entre as colunas de um templo arruinado, a subir e descer ruas onde a vida fora interrompida, a ver a concha vazia do teatro romano, as chávenas de café abandonadas sobre as mesas, uma cidade que deixara de sê-lo, como se um grão de areia trazido pelo rio tivesse entrado na sua engrenagem e os subterrâneos de rodas dentadas e correias a vibrar de tensão, as fornalhas que aqueciam a terra e os túneis secretos em cujas paredes se podia ouvir a água do Maritsa, tudo isso fosse suspenso por instantes - até que.

Pouco a pouco, as fagulhas foram caindo cada vez mais espaçadas sobre a água do rio e o céu voltou a cobrir-se, soltando pequenos urros - fracos, longínquos, como uma besta que enfim adormecesse. Os músicos foram os primeiros a regressar à vida, e com um sopro grave do tulum os corpos voltaram a encher-se, as vozes acabaram de atravessar a praça, e Fava era de novo uma cidade em festa.

Comi a minha sopa de lentilhas em silêncio e deixei-me ficar a ouvir a música, à espera do Nurettin, que ia levar-me de volta ao hotel porque eu tinha medo de atravessar a floresta sozinha à noite, e nem tinha a certeza de saber encontrar o caminho de regresso a casa.



condessa de Ségur

vive num recanto da periferia do império, onde não chegam as ordens do imperador.
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