Barcelona: o menino do gás


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São 10h da manhã, e é infalível: o 'Têiêiêinnnn! Têiêiêinnnn!' vai-se aproximando; ouço-o do meu quarto, mesmo com a janela fechada, mais perto, ainda mais perto, e mais longe, cada vez mais longe. Há quem confie neles como despertador: são os paquistaneses que, todos os dias excepto aos Domingos, percorrem as ruas de Barcelona empurrando um carrinho com botijas de gás. Passam, e batem com uma vareta nas botijas para avisar os residentes, com um zelo implacável.

É um som de certa forma agradável, uma versão minimalista dos amola-tesouras, uma versão pós-moderna da Rosinha dos Limões, e eu, para tirar a fotografia, assomei à janela com o mesmo entusiasmo sorrateiro do apaixonado da canção. São franzinos, sim, mas nem por isso cheios de graça, os rapazes. Ao que parece, o único dinheiro que ganham neste trabalho é o das gorjetas, e daí a aplicação com que o fazem - e com que assumem que o cliente não quer o troco do pagamento.

Tudo isto faz parte do substrato musical da cidade, excepto aos Sábados, dia em que se transforma no tormento de quem tenta dormir até um pouco mais tarde. Um companheiro aqui da casa contava-me que um Sábado, desesperado porque um menino do gás tinha estacionado debaixo da janela do quarto dele e tocava a varinha mágica de cinco em cinco segundos, levantou-se e foi à varanda pedir-lhe que escolhesse outra esquina. Mas o paquistanês, ao vê-lo, fez um grande sorriso e apontou para a botija, com a graciosidade de quem lhe vai oferecer um ramo de flores, e o espanhol perdeu a coragem.

No dia seguinte, acabou-se o gás cá em casa, e os paquistaneses estavam de folga. Ora toma.


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