
São 10h da manhã, e é infalível: o 'Têiêiêinnnn! Têiêiêinnnn!' vai-se aproximando; ouço-o do meu quarto, mesmo com a janela fechada, mais perto, ainda mais perto, e mais longe, cada vez mais longe. Há quem confie neles como despertador: são os paquistaneses que, todos os dias excepto aos Domingos, percorrem as ruas de Barcelona empurrando um carrinho com botijas de gás. Passam, e batem com uma vareta nas botijas para avisar os residentes, com um zelo implacável.
É um som de certa forma agradável, uma versão minimalista dos amola-tesouras, uma versão pós-moderna da Rosinha dos Limões, e eu, para tirar a fotografia, assomei à janela com o mesmo entusiasmo sorrateiro do apaixonado da canção. São franzinos, sim, mas nem por isso cheios de graça, os rapazes. Ao que parece, o único dinheiro que ganham neste trabalho é o das gorjetas, e daí a aplicação com que o fazem - e com que assumem que o cliente não quer o troco do pagamento.
Tudo isto faz parte do substrato musical da cidade, excepto aos Sábados, dia em que se transforma no tormento de quem tenta dormir até um pouco mais tarde. Um companheiro aqui da casa contava-me que um Sábado, desesperado porque um menino do gás tinha estacionado debaixo da janela do quarto dele e tocava a varinha mágica de cinco em cinco segundos, levantou-se e foi à varanda pedir-lhe que escolhesse outra esquina. Mas o paquistanês, ao vê-lo, fez um grande sorriso e apontou para a botija, com a graciosidade de quem lhe vai oferecer um ramo de flores, e o espanhol perdeu a coragem.
No dia seguinte, acabou-se o gás cá em casa, e os paquistaneses estavam de folga. Ora toma.
8 comentários
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o melhor da web
haha . que louco . nao fazia ideia que tal coisa existisse sequer :)
mas assumo continuar a preferira lenka (se não estou em erra é este o nome da "Menina do Gás") ... :P
seven
É a globalizaçon... :)
Leno
^^" Legal ver a vida desse ponto de vista. :)
Bill
Fantasticamente bem escrito.
Bela maneira de contar a historia, fiquei aqui a ouvir o menino do gás a brincar com sons nas manhãs geladas...
(=
vasco
Gás canalizado, não?
Maikon A. Delgado
Genial e bem escrito. Parabéns.
emerson cunha
Maravilhoso o texto, tajana. é maravilhoso qdo se toma por pauta um elemento tão ímpar e tão singluar, sem precisar das generalizações e dados objetivantes das reportagens em geral. uma crônica, o texto documental de um cotidiano por uma visão, no mínino,antropológica. parabéns pela escolha do tema, e do olhar tão sensível e atento que vc tem. MAravilhoso! =D
E. Moraes
Será se em Barcelona eles nunca ouviram falar de tele-entrega? seria muito mais prático que sair gritando por aí, ou até mesmo, melhor que aqueles caminhões de gás com sino tocando. Quando o gás acaba, é só ligar para tal numero que oferece o serviço de entrega de gás, e eles vem deixar o gás na sua cozinha. Por fim, história do menino do gás é boa.
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