O verão possível entre a andança e o meio


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

Havia chovido de forma fina e contumaz e as luzes abriam clareiras para o dia que se aproximava do final muito lentamente. O passo controlado só porque eu não queria escorregar e o guarda-chuva na sacola de papelão. Entrei no café mais próximo e pedi um chá gelado com madeleines amanteigadas e úmidas. Do outro lado da rua, embaixo da marquise de um banco, um músico compunha uma melodia melancólica enquanto olhava fixo para os carros constantes como se estivesse revivendo na memória afetiva o momento especial que antecede a estréia e que paira no ar, entre a platéia e o palco. E por causa dos óculos eu podia observar tudo e todos sem me abster de nada. Como a vista delicada do casal de idade ainda de mãos dadas que deixou um troco na maleta musical. Os de bota de chuva e os sem bota como eu. Um ou outro com uma fatia de pizza robusta no prato descartável, e por fim, aqueles que não iam dar nada ao músico, mas se sentindo constrangidos retornaram deixando um trocado. O meu eu de ontem.

O pequeno café tornou-se cheio de engravatados e moças de salto alto gradualmente, e eu me vi obrigada a sair do local mais cedo do que o esperado. Pedi um pouco de guardanapo e caminhei até o Bryant Park com a brisa tímida, etérea. Escolhi uma entre as inúmeras cadeiras verdes e dobráveis de ferro e passei o papel para tirar o excesso de água. Sentei-me virada para a parte que dá para a lateral do prédio da biblioteca pública, que é tão magnifico quanto o busto de Gertrude Stein logo ali. Abri o guarda-chuva para me proteger dos raios de sol e como não havia onde colocá-lo resolvi que o melhor ia ser segurá-lo enquanto houvesse sol ou até quando a minha mão suportasse. Acomodei o livro no colo e abri na página da crônica da cidade de Nova Iorque. Em meio à música e o barulho da sirene da viatura, li o relato instantâneo da vida de um taxista. A vida breve e frágil corrida no trânsito devorador de asfalto, de gentes e de silêncios. Porque aqui ninguém pára de dirigir quando alguém coloca o pé na faixa como dizem. Isso é fato e o resto, contos.

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Entrepensando senti a mão do guarda-chuva adormecida entre o estágio de dor e formigamento e determinei que era hora de levantar. E que fosse logo, antes que a multidão de pessoas saindo do trabalho e vindas de todas as direções transformasse a calçada em mar. O músico também deve ter tido a mesma idéia porque guardou o violão na mala de couro, as notas na carteira e as moedas no bolso do paletó. Meticulosamente. O que será que ele vai jantar? Foi o que pensei num sopro, puro instinto. Quando a luz do sinal fechou para os carros e eu comecei a cruzar a faixa de pedestre reconheci o rosto de uma senhora de idade que atravessava a rua com leveza. Insisti com o olhar e ela retribuiu de volta com uma expressão agradável. Havíamos feito um curso desses de primavera juntas e desde então nunca mais nos vimos. Ela precisava retirar um livro na biblioteca e eu voltar para casa. Combinamos um café qualquer dia desses na livraria japonesa da rua 49, mas já sabendo que a gente só ia se encontrar assim de novo, de modo são nunca.

Lembrei-me das minhas avós com a cabeça ainda no encontro e senti uma saudade sutil e morna tocar as bochechas. Imaginei como seria bom revê-las assim tão fácil, cruzando a rua, refazendo lembranças e sorrisos. Que seria, seria. As promessas. O sol ensaiava partir e eu imaginava as estrelas descortinando o céu. Na vitrine da papelaria uma fotografia do Empire State Building ao lado de outra da ponte do Brooklyn. Então era isso, como se a mente ordenasse, prescrevesse. Precisava atravessar a ponte novamente sem saber como seria uma vez do outro lado. A caminhada longa e silenciosa até o trem, o cansaço e as obrigações tantas. Na imensidão da paisagem, o ar espontâneo. Mas ficava tarde e a temperatura fazia o movimento amplo, de pêndulo. E eu queria o desistir, deixar para outro dia, quem sabe esperar o sol ameno de Setembro ou Outubro, nascer.

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No vão da metrópole o olhar abismado e inquieto. Letreiros, cartazes e propagandas cobrindo edifícios, lojas e ônibus de dois andares como se fossem carros alegóricos. Um verdadeiro vitral néon. Do outro lado da rua, entrando na desordem da Times Square, um homem vestindo uma capa marrom e uma mulher de óculos ray-ban gritavam e prometiam o reino de Deus. Um pequeno altar e uma mesa repleta de livros e imagens da Bíblia entre frascos de vidro contendo o desespero de Eva e panfletos que agouram mal. Apocalípticos. Nessas horas a respiração vai fundo e para se proteger a gente se imagina como parte da filmagem de alguma produção B só que no futuro. Uma triste versão de Blade Runner produzida por Golam-Globus.

O mais aconteceu sem muita ciência, ainda envolta na situação passei a catraca, desci dois lances de escadas e peguei o metrô errado. A ponte que não foi, mas havia de ter sido a escolha acertada.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
Saiba como escrever na obvious.
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