O Véu de Washington Heights


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

A esmo. Eu trazia Sonny's Blues comigo a esmo numa tentativa de reconhecer a essência do lugar. Se as casas continuavam pairando no ar denso. Se a tinta colorida das paredes descascavam a história e a cultura que reverteu todo o brilho, devagar. Em câmera lenta, no degrau das townhouses, moradores assistiam a vida em tempo real com o sol de Setembro que sabia ser quente e incidia sobre o olhar vago e distante de renúncia. O desamor. Na calçada, bem na minha frente, uma mão ligeira movia cautelosa na direção do bolso da bermuda de um rapaz. Quase dentro. Criei suspeitas e marquei encruzilhada com o que se atreveu. Então, num ímpeto, gritei "ei ei ei". O moço, alto e magro, recuou e fez crescer os olhos de seta. O instante em suspensão. Eu nunca imaginei que esse dia iria chegar, que eu fosse presenciar uma cena como esta. Momento insensato. Olhei rapidamente ao redor e não encontrei ninguém disposto a me ajudar ou que tivesse visto o que eu vi. O batedor de carteira, surpreso, seguiu o rumo oposto e eu respirei com dificuldade.

Eu não havia trazido o mapa com o pedaço de papel colado no meio. De certo ele descansava sobre a mesa da cozinha. No bem fazer. Também não havia trazido o endereço do museu, que dirá o telefone. A sorte em recesso. Parei na primeira banca de jornal que enfeitava a esquina sem êxito. O pequeno mapa que o jornaleiro me mostrou – o único modelo à venda - continha apenas os pontos turísticos mais visitados da cidade e eu não queria isso. Renegava. Lembrei-me das lojas de souvenir espalhadas por toda parte. Na entrada, mapas para todos os gostos, finalidades e encontros. Não foi no primeiro, nem no segundo que eu achei. Estava quase desistindo quando encontrei o nome do museu e as coordenadas em um mapa ilustrado, panorâmico. Sem nada para anotar tentei memorizar que o museu devia ficar na altura da rua 145 com a Broadway. Dissidente, o pássaro sussurrou: "lembre-se que este é um mapa panorâmico".

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

Peguei o trem "A" e desci na estação 145. Fui na perguntacão e nada. Ninguém conhecia o lugar pois que não havia traços dele na região. Como um feitiço. E era estranho por causa da comunidade dominicana que se aproximava, e da língua. O castelhano. Avistei uma biblioteca no meio do quarteirão, na ladeira, e resolvi tentar. A água do bebedouro tinha gosto de torneira, mas trouxe ânimo e eu esperei no balcão da entrada impaciente. Os funcionários pareciam conversar sobre as pequenas coisas, sem senso e eu tive de esperar. No mural de cortiça, anúncios de eventos e atividades do bairro mesclados com fotografias de crianças, formaturas, e o horário de funcionamento da biblioteca. Telefones úteis. Nas mesas espaçosas, livros e jornais. Nos computadores, adolescentes compenetrados na beleza do mundo. Finalmente perguntei sobre a Hispanic Society, mas não souberam responder. Encaminharam-me para o supervisor que, atenciosamente, verificou o endereço na Internet. E lá o equivoco, a sociedade ficava na rua 155. A outra realidade.

Ainda que insegura e reticente decidi caminhar. Vesti a mochila na frente e atravessei a fronteira entre o Harlem e Washington Heights sem saber exatamente onde um termina e o outro começa. Reconheci o caminhar devagar, de batida leve e relaxada. As notas musicais que tocam o ar e ecoam triunfante no ouvido. O diálogo com o corpo que ocorre na total ausência de palavras. Apenas sensação. A antiga atmosfera de Sonny e Creolo. Procurei não olhar olho no olho e concentrei toda força motora na particularidade da paisagem. O supermercado cuja parede estava coberta de cartazes promocionais. A loja de esquina com a vendedora lixando as unhas ao som de bachata-merengue. A criança barrigudinha chupando picolé e a calçada larga da avenida. Uma inclinação no espaço breve onde a marginalidade e a alienação lembram a cidade de interior qualquer, em qualquer canto. O cemitério em pleno asfalto e a igreja quase ao lado para alento da alma aflita. De fato, menos inglês e muito mais castelhano.

O museu havia acabado de fechar como quem traz o azar na frente. Difícil acreditar que ninguém tinha ouvido falar dele. Uma mentira dessas que rodeia a cabeça da gente, pois que um prédio como este, fundado em 1904, não passa desavisado, transparente. Não pode. Foi preciso pedir autorização para entrar no prédio principal. Para na vista geral tecer o conhecimento. E no final deu tudo certo porque o pátio extenso de chão de pedra que conecta um prédio ao outro estava sendo preparado para um evento à noite com direito a fotógrafos, mesas e arranjos de flores. Canhões de luz à sombra do El Cid. E não pude me conter, haveria comes e bebes? Estava faminta. Ao entrar no prédio senti o cansaço percorrer o corpo, senti que eu devia ter saído de casa preparada, no seguro da situação. As paredes de madeira ornamentada, talhada; muita cerâmica e azulejos. Escadas estreitas, pouca iluminação. As pinturas da Era de Ouro e as esculturas medievais sufocando suspiros. Tanto que nem cabe na gente. E naquele momento único de cumplicidade entre homem e arte, o silêncio.

Fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo Mikko Stamm


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/cidades// @obvious, @obvioushp //isabella kantek