Pizza Palace, Central Park e Coisas Gerais


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

"Fiquei sabendo que o Steven Seagal já almoçou aqui." Apesar do nome Palace concluir imponência, o local é uma lanchonete de esquina dessas conforme à regra comum, onde pizzas e calzones com substância são servidos todos os dias. "Ah é? E parece que a Cindy Lauper passou a infância aqui no bairro, sabia?", comentei enquanto partia o calzone com uma faca cega - não ia conseguir comer tudo, quem sabe com os olhos. "É, sabia, sim. Mas então, ouvi dizer que ele esteve em Astoria para conhecer a segunda Grécia". Formei idéias, revisitei alguns filmes e os deixei ir sem apego. E assim, ele mordeu o seu gyro de frango porque o churrasco grego no pão pita ele preferia deixar para os mais viscerais. Na mesa da frente uma família com três crianças almoçava pratos da culinária italo-americana. O cheiro do molho de tomate exalava temperos e modos de preparo tão distintos de tudo o que eu já havia experimentado que até parecia bom. E não havia como ficar indiferente; ele olhou, e apenas ele. "São almôndegas, alguma massa e pizza", disse. Lembrei-me das almôndegas da Ikea e de que eu nunca mais havia voltado lá.

Isso acontece geralmente quando eu não consigo cozinhar e o tempo se mostra amável, nos convidando para uma volta ou quem sabe, duas consoantes. Mas também porque fazia tempo que nós não passávamos por aquelas quinas. E eles foram certeiros na escolha do ângulo, pois que o lugar tornou-se uma espécie de signo do bairro, distintivo mesmo, se pronunciando desembaraçado e aglomerando a todos. Isto é, a pizza e os aromas tinham índole. E eu só tinha uma reclamação e nem chegava a ser protesto de fato. Era coisa menor: a impaciência subalterna, pequena e imatura gerada pelo atendimento enrolado, no desfazer dos segundos, minutos, horas... como quem engana o compasso do tempo. Mas eles, os moços, pareciam não fazer caso nenhum dos nossos estômagos porque trabalhavam com júbilo na prosa faceira. O que eu sei desta história que corre solta atrás de balcão, dessa dinâmica? Sei nada. O cheiro da farinha crocante que vinha do forno à lenha e dos queijos derretendo abria o apetite. Os prazeres. Tomei um pouco da coca-cola dele e reparei.

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Uma criança chorava desconsolada no fundo. E o pulmãozinho não fazia cerimónia de nenhum tipo porque criança quando chora não mede os impulsos e as sociais. É pura lisura de flor - se não fosse pelo agudo da voz nascente. Da nossa mesa, o que deu para sentir foi que ela, a menina miúda, queria andar no carrossel de três cavalos que incrivelmente havia achado um lugar à sombra dentro da lanchonete; mas a mãe não queria deixá-la. Ela era só o pedir para a menina se sentar e terminar a pizza. Eu tinha na bolsa um saquinho cheio de quaters que eu carregava por causa da lavanderia. Pensei em oferecer, acabar com aquele desassossego, porém resolvi não me intrometer. Quando estávamos saindo a quietude fez que fez e a música da rádio também. Até o choro emudeceu. Um senhor beirando os oitenta anos, de boina e suspensório, segurando o jornal italiano da comunidade, entregou uma moeda à criança que subiu sem jeito, sorrindo e soluçando lágrimas. Não deu tempo de conferir o semblante da mãe. O vento bateu a porta com força e só conseguimos escutar o começo da canção do brinquedo que tocou com solavanco e voz automatizada: "Old MacDonald had a farm...".

O trem não demorou para andar e em Astoria Boulevard fomos avisados de que ele iria expresso até a Queensboro Plaza. Isso não acontece sempre, e quando ocorre tem a bondade. Sentamos de frente para a janela com a paisagem resvalando, montada e machada, pois que para cada estação havia um pedaço da cidade que ficava para trás de súbito. Na última estação ele entrou, era Mr. Smile. E eu fiquei foi só alívio porque fazia tempo que não o via, e contente porque a sua aparência era forte e reluzente, de quem se cuida. Salvo! Chegámos no parque em menos de 20 minutos e entrámos pelo corredor de pintores-retratistas e caricaturistas a postos. Um coreano me chamou com a mão e em seguida mostrou o número dez com os dedos. Eu agradeci e ele insistiu: "just 10 dollars", assim, fácil e sorridente. Havia retratos variados e caricaturas efêmeras. A Princesa Diana estava em todas ao lado de Angelina Jolie e Brad Pitt. Contra-surpresa, um rapaz comprava a caricatura de Bush, enquanto um casal levava a de Al Pacino, concluindo.

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Andamos um pouco e também em círculos. Passamos em frente ao carrossel fiel à vida incessante e paramos por um instante. O cavalo piscou e sorriu surreal como se realizasse porventura uma jornada inesquecível e desmedida. Não havia sinal de chuva e o vento era ideal, perfeito para crinas e galopadas. Daí que de repente um cheiro de pipoca sobressaiu dos arbustos e a gente começou a andar de novo, atravessando calçadas e ciclovias com um verde claro desses que só mesmo nesta estação. De longe os noivos posavam para fotos enquanto os barcos, um a um, faziam namoros comportados, dispondo os seus remos em abraços que atenuavam o afastamento, qualquer que seja. As mães, lado a lado, cuidavam para que tudo estivesse impecável, murmurando ternuras e lamentos maternais que imaginávamos pelo contorno dos lábios pintados, delicadas cerejeiras. Não tinha um que não parava para olhar, inclusive as pombas e os cães. E fomos ficando - não no banco ou na grama - sem ter que se despedir de ninguém, esperando o sol inteiro transbordar para trás.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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